Publicado em: 02/12/2015 16h37 - Atualizado em 09/12/2015 13h35

Reflexões sobre o fundador oficial de Indaiatuba

Até onde a documentação histórica conhecida até hoje nos aponta, foi o latifundiário escravocrata

Eliana Belo
Até onde a documentação histórica conhecida até hoje nos aponta, foi o latifundiário escravocrata, Tenente Pedro Gonçalves Meira, dono da fazenda açucareira Pau Preto, que idealizou, já em 1793, a construção de uma capela nos limites de sua propriedade na paragem de "Indayatuba", doando um pedaço dessas suas terras ao padre Joaquim Gomes Escobar, para constituição de seu patrimônio sacerdotal e também para que fosse capelão da então chamada Capela de Nossa Senhora da Conceição, planejamento que não vingou, pois o padre Escobar foi nomeado para a freguesia de Lages antes da viabilização.
Antes desse documento, conhece-se apenas um outro registro que cita Indaiatuba, de 1768, uma lista militar de "Indaiatyba" feita pelo governador da então província de São Paulo, que nos leva a concluir que havia vários "fogos" no pequeno arraial, (onde morava certo José da Costa) caso contrário, uma lista (mesmo que pequena) não seria viável.
Certo Pedro Gonçalves Meira foi registrado pelo cronista Francisco Nardy Filho, que conta ter sido este procurador da Câmara da então Villa de Ytu em 1740, tendo, neste ano, solicitado uma casa para onde as vítimas de uma forte epidemia de bexiga (muito comum na época) fossem isolados. Esse Pedro Gonçalves Meira é o mesmo que fora casado com Maria Simões e que tiveram o filho Jeronymo Gonçalves Meira em 1692. Cerca de 100 anos separam esse primeiro do qual queremos referenciar como fundador oficial de Indaiatuba, o tenente Pedro Gonçalves Meira, que foi batizado em 1743 e que se casou com Ana de Campos Penteado em 1776, irmão de Joaquim Gonçalves Bicudo, que já havia casado com Maria de Campos Penteado em 1775 (irmãos casados com irmãs). O primeiro é avô do segundo.
Suposições
É provável que a Fazenda Pau Preto do Tenente Pedro Gonçalves Meira fizesse limites com esse arraial, que, segundo a lenda, teria nascido de discidentes, ou melhor, sobreviventes do suposto povoado Votura, quase dizimado por uma epidemia de varíola (que aguarda pesquisas arqueológicas para comprovação de autenticidade), por sua vez fundado pelo lendário (pelo menos até agora lendário) José da Costa, às margens do Ribeirão Votura (atual Córrego do Caldeira ou ainda Córrego do Barnabé) e nesses tempos remotos também chamado de Ribeirão Indaiatuba.
Não se pode deixar de citar que, segundo fontes também documentadas, o proprietário da Sesmaria de Cocaes, uma subdivisão da Capitania Hereditária de São Vicente era Joaquim Gonçalves Bicudo, irmão de Pedro Gonçalves Meira.
O filho dele, João de Campos Bicudo - procurado por inúmeros fazendeiros da época pelas habilidades em agrimensura e mecânica, foi o responsável por fazer o arruamento das ruas de Indaiatuba no entorno da capela que seu pai construíra, a Capela de Cocaes. Por essa razão as ruas mais antigas de Indaiatuba apresentam delineamento e larguras iguais: elas foram planejadas. Voltando à lenda, essa capela teria sido inicialmente construída pelo até agora "mítico" José da Costa.
Seguindo as pistas, nesta época, Pedro Gonçalves morava em Campinas, de onde saiu desgostoso após brigar com um padre, e veio morar em Indaiatuba.
Sem tantas suposições e com mais certeza podemos afirmar que o tenente Pedro Gonçalves Meira escolheu cuidar melhor da capela do arraial (construída pelo até agora mítico José da Costa ou pelo seu irmão Joaquim, ou pelos dois?) com muitos propósitos, a começar pelo próprio local em que foi erguida. Em primeiro lugar, reforcemos a afirmação de que o lugar da capela, surgiu antes da instituição da capela pelo nível de sociabilidade, pelo movimento de tropeiros, pelos povoadores já citados: um cruzamento de rotas. Em 1792, pouco antes de Pedro Gonçalves planejar em doar parte de seu patrimônio para construir a capela para o padre Escobar (que aconteceu em 1793), havia sido aberta a primeira estrada provincial entre Itu e Campinas, ou seja, embora outros caminhos houvessem, sob responsabilidade da Câmara Municipal de Itu e mesmo dos fazendeiros, esse patrimônio público demarcava a presença de uma nova realidade em um espaço onde até agora as relações de poder eram demarcadas exclusivamente entre os latifundiários
Documentos da Cúria Metropolitana de Campinas pesquisados por Nilson Cardoso de Carvalho contam o que fez o tenente Pedro Gonçalves Meira, ao edificar (ou reformar?) e instituir e doar patrimônio para a capela onde hoje é a Matriz Nossa Senhora da Candelária de Indaiatuba, no ponto mais alto da paisagem da região: ele inseriu ao então arraial - agora margeado por uma estrada provincial, de acordo com as circunscrições eclesiásticas do período, em uma categoria onde ele pudesse ser reconhecido como administrador/patrono ou padroeiro do local - na categoria de arraial com capela curada. Isso era muito comum no Brasil, desde o período Colonial até a Proclamação da República, onde o reconhecimento oficial de um povoado implicava a integração dos poderes do Estado e da Igreja: se existisse uma capela com um patrimônio, onde eram celebrações eram realizadas regularmente, este local era chamado Capela Curada ou Curato. Com o aumento da população no entorno de 'sua' capela curada seria, ele, o Tenente Pedro Gonçalves - quem pediria à Assembleia Provincial à instalação da Freguesia (na época, paróquia).
O prestígio de um tenente
As capelas eram a materialização do poder e riquezas dos senhores e desde os primeiros engenhos coloniais a presença de uma, nem se fosse um oratório, era obrigatória. Como tantos outros, Pedro Gonçalves Meira empenhou-se em erigir a capela e associar seu nome ao empreendimento. Ele era reconhecido pelo Bispo e pela Coroa, obtendo privilégios do padroado local. Por lei, ele passou a ter direito de controlar os rendimentos da capela e, no caso de necessidade ou de pobreza (que ele mesmo avaliaria, nessa tal qualidade de patrono) de fazer uso dos rendimentos da capela. Um capital simbólico também lhe foi agregado: ele e sua família passaram a ter assentos especiais nos cultos e à precedência em cerimônias e procissões e quando mortos, jazigos perpétuos na capela - Pedro Gonçalves Meira está sepultado na Matriz Nossa Senhora da Candelária; seria honrado em vida com direito às preces rezadas em seu nome.
A capela curada de Nossa Senhora da Candelária transformou-se em Freguesia no dia 9 de dezembro de 1830. Ser uma freguesia significa que Indaiatuba passou a ter uma paróquia, com um pároco residente. Na década de 1970, por uma iniciativa do Rotary Club, após longo confronto, essa data do "nascimento" da igreja Nossa Senhora da Candelária como "paróquia" foi escolhida como sendo também o "nascimento" de Indaiatuba e por influência do pesquisador Nilson Cardoso de Carvalho, com base nos documentos até então consultados, Pedro Gonçalves Meira é o "fundador oficial" por ter curado essa igreja. José da Costa e Joaquim Gonçalves Bicudo, por hora, aguardam mais estudos para ganharem mais visibilidade nessa história, ou perderem de uma vez por todas.
Afinal, a História é de quem se apropria dela.
Quem quer contar outra?
Eliana Belo é historiadora e conselheira da Fundação Pró-Memória.

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