Publicado em: 10/06/2016 09h24 - Atualizado em 10/06/2016 20h25

A Fazenda Cachoeira do Jica e o Açúcar

Carlos Gustavo Nóbrega de Jesus é Superintendente da Fundação Pró-Memória e Doutor em História Cultural e Pesquisador da Unicamp/IFCH

Como já relatei aqui nesta coluna há alguns meses, estamos fazendo um levantamento da documentação referente à sede da Fazenda Cachoeira do Jica, para fins de construção de um inventário que dê base para declarar o bem como de interesse histórico do município, primeiro ato para iniciar o processo de tombamento.
De acordo com conversas com antigos moradores e memorialistas da cidade, pude constatar que a Fazenda, localizada na Estrada Municipal Cachoeira do Jica, no bairro Tombadouro, região da bacia do Rio Jundiaí, tem uma grande relevância para a memória afetiva da comunidade indaiatubana.
Aos poucos, pude dissociar a importância do bem em três aspectos que se intercruzavam. Primeiro o arquitetônico, depois o histórico-econômico e social e em terceiro, o cultural religioso. O histórico econômico e social está ligado ao fato de ter pertencido à família Almeida Prado e ter sido a sede de uma fazenda de alta produtividade açucareira e depois cafeeira. Tal hipótese ganha uma maior credibilidade ao lançarmos mão da documentação primária manuscrita presente no nosso Arquivo Municipal.
No livro de atas da junta de qualificação eleitoral dos anos de 1847-1855, José de Almeida Prado, o Jica, é descrito como eleitor que tem a renda proveniente de "seus Engenhos". Em outra série de escrituras de compra e venda de terras pode-se notar que, desde a década de 1840, José de Almeida Prado buscou aumentar as fronteiras da Fazenda com a compra de terras lindeiras, num nítido intuito de aumentar sua produção.
Já na série documental de compra, venda e troca de escravos, levantamos dados que nos possibilitam afirmar que Jica também foi um costumeiro comprador de escravos, principalmente do nordeste brasileiro, possivelmente buscando mão de obra com certa experiência na lavoura canavieira nordestina (que, se no século XIX já deixará de ter o protagonismo da produção de outrora, ainda detinha uma tradição muito marcante na cultura do açúcar).
No entanto, dentre as séries documentais citadas, o documento que tem as informações mais precisas a respeito da Fazenda Cachoeira do Jica é o inventário do próprio José Almeida Prado, presente no Arquivo do Museu Republicano Convenção de Itu. Nele consta a data da morte do dono da fazenda (dia 19 de dezembro de 1879) e uma cópia de seu testamento, datada de 1879. Além da lista de escravos (um dos "bens" mais preciosos da época), consta também o levantamento das dívidas do capitão José de Almeida Prado, documento no qual encontra-se a informação de que era dono do sítio e terras denominado Fazenda Cachoeira, que segundo o mesmo documento surgiu na década de 1840, quando o dito capitão comprou terras dos herdeiros de Joaquim Gonçalves Bicudo.
Ainda a respeito do sítio, denominado Cachoeira, afirma-se que ficou para o filho do Capitão José Manoel da Fonseca Leite, casado com a filha do Jica, Thereza Almeida Prado, além de confirmar que o local era grande produtor de açúcar, "com casa de morada e fábrica de açúcar". Assim, pelo simples fato da Fazenda ser uma das grandes produtoras açucareiras não só da freguesia, mas da região, já demarca a relevância histórica de tal espaço e justifica o tombamento de sua sede. No entanto, a importância histórica da Fazenda vai além da sua relação com a produção açucareira da época do quadrilátero do açúcar, relacionando-se também com a cultura cafeeira. Mas esse é um assunto para uma próxima coluna.

Veja Também:

Mais lidas
Filmes em cartaz
  • INVOCAÇÃO DO MAL 2
  • TRUQUE DE MESTRE: O 2º ATO
  • COMO EU ERA ANTES DE VOCÊ
  • WARCRAFT - O PRIMEIRO ENCONTRO DE DOIS MUNDOS
  • UMA LOUCURA DE MULHER
  • ALICE ATRAVÉS DO ESPELHO
  • JOGO DO DINHEIRO
  • X-MEN: APOCALIPSE
  • ANGRY BIRDS - O FILME
  • MOGLI - O MENINO LOBO
  • QUE VIVA EISENSTEIN! 10 DIAS QUE ABALARAM O MÉXICO