Publicado em: 24/06/2016 12h53 - Atualizado em 24/06/2016 21h17

A herança do açúcar e do café

Carlos Gustavo Nóbrega de Jesus é superintendente da Fundação Pró-Memória e Doutor em História Cultural e Pesquisador da Unicamp/IFCH

A importância da sede da Fazenda Cachoeira do Jica para a história do Estado de São Paulo pode ser constatada num dos principais estudos sobre a história da arquitetura paulista, o livro "Casa Paulista" (1999) do arquiteto e historiador Carlos Lemos. Na obra, a sede aparece como uma relevante representante da arquitetura "dos primeiros tempos do café na bacia do Tietê".
Mas fica o questionamento: e o legado do açúcar que escrevi na coluna passada, embasada em documentos? Ou mesmo a seguinte descrição do memorialista Dr. Scyllas Sampaio (1998, p.158): "Na fazenda Cachoeira, aproveitando a queda d'água, lado esquerdo do rio Jundiaí, uma tirada de água com mais de uma légua de extensão, movimentou três grandes engenhos, sendo o primeiro deles localizado aproximadamente a uns 300 metros da cachoeira lá existente, pertencendo a fazenda a José Almeida Prado (Jica, como era conhecido), irmão dos Tibiriçás. A próspera propriedade possuía inúmeros escravos, todos eles vestidos de batas vermelhas que além de servir de agasalho servia também para identificá-los a distância".
O que ocorreu com a história da Fazenda Cachoeira do Jica é o que ocorre com a história de outras fazendas que tiveram seu legado açucareiro sobreposto pelo legado cafeeiro (a Fazenda Cachoeira de Vinhedo também pode ter um destino semelhante, de acordo com pesquisas advindas de uma parceria entre Fundação e Unicamp no local). Algumas hipóteses podem ser levantadas a respeito de tal esquecimento ou sobreposições de memórias, entre elas o fato do café ter sido o último motor propulsor da economia agrária paulista e brasileira do século XIX, momento de construção ou reconstruções de tais sedes.
Nesse caso, o café significava o símbolo da modernidade econômica, política e social de um novo regime em voga que queria deixar para trás a pecha escravista e colonial e "atrasada" da era açucareira. O momento era de substituir a taipa pelo tijolo e o escravo africano pelo imigrante europeu. O que, inclusive deu subsídios às absurdas políticas e teses de embranquecimento do país com a importação da mão de obra europeia.
Tal discurso do final do século XIX foi absorvido por parte dos nossos memorialistas e historiadores do século XX que, pelo fato de não enxergarem mais as taipas e os engenhos, reproduziram, ingenuamente, um argumento que carregava dentro de si, uma carga de preconceito que queria apagar o passado escravocrata e colonial das glamorosas fazendas cafeeiras, marcadas agora não pelas construções de terra, mas pela alvenaria em tijolo. Tal situação relegou ao limbo memórias que seriam relevantes para resgatarmos parte de nossa história que, se não for revista agora, corre o risco de nunca mais ser contada.

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