Publicado em: 22/07/2016 09h57 - Atualizado em 22/07/2016 21h17

A procissão de São Benedito

Carlos Gustavo Nóbrega de Jesus é Superintendente da Fundação Pró-Memória e Doutor em História Cultural e Pesquisador da Unicamp/IFCH

Nas últimas semanas estou compartilhando aqui parte da pesquisa feita na Fundação para solicitar o tombamento da Fazenda Cachoeira do Jica. Ao retomar a história em torno de tal bem, estamos apresentando parte da história da cidade que ainda não foi contada. Nas colunas passadas salientei que, aos poucos, pude dissociar a importância da Fazenda em três aspectos que se intercruzavam.
Primeiro o Arquitetônico, depois o histórico-econômico e social e o terceiro, o cultural-religioso. O histórico-econômico e social está ligado à família Prado, a produção açucareira e cafeeira, e a passagem da estrada de ferro Ituana na cidade, discussões que apresentei aqui nas últimas colunas.
Hoje gostaria de salientar a relevância cultural-religiosa da fazenda para memória coletiva dos indaiatubanos, nesse caso peço permissão aos leitores para compartilhar a bela descrição do professor Lauro Ratti Junior, que além de historiador, professor e Presidente do Conselho de Preservação do Município, também se apresenta como testemunha ocular da história da cidade.
"Em tempos de longa estiagem, era costume realizar-se na cidade uma procissão conduzindo a imagem de roca de São Benedito, que ficava na capela da Fazenda do Jica, no bairro Tombadouro, até a Igreja de São Benedito, no centro da cidade. O caminho de terra não era muito difícil de ser percorrido, embora tivesse duas boas subidas. Os santos de roca se destinavam para estas ocasiões, isto é, eram feitos para serem conduzidos em procissão. Normalmente, eles possuem rosto, braços e mãos trabalhados, sendo o resto do corpo, nada mais do que uma armação de madeira recoberta por roupas, que por tornar a peça mais leve, permitiam ser conduzidos em longos percursos (...). A procissão assim como a imagem do Santo de Roca e os pequenos oratórios, que existiam nos barrancos de beira da estrada (...) são, na verdade, exemplos de uma manifestação da religiosidade popular, que não mais existe. Hoje a imagem de São Benedito está guardada na Igreja da Candelária e nos anos 90, do século XX foi a última vez que tal procissão ocorreu em Indaiatuba, devido uma prolongada estiagem, sendo o recurso da procissão, não apenas lembrado como novamente colocado em prática. Nessa ocasião a imagem de São Benedito seguiu para a cidade mais uma vez. Agora, sobre a carroceria de uma caminhonete. Coincidência ou não, depois de um dia que a imagem havia deixado à pequena capela da sede da fazenda para ser depositada na Igreja de São Benedito, caíram as primeiras gotas de chuva".
Tal testemunho do professor Lauro deixa ainda mais evidente a relevância da preservação da memória da Fazenda Cachoeira do Jica, não só por significar um exemplar do desenvolvimento econômico e social do Estado de São Paulo e da região denominada quadrilátero do açúcar, na qual está situada Indaiatuba, mas também por ter sido um local de compartilhamento de uma prática cultural de grande importância para população local, e que por isso deve ser documentada para não correr o risco de cair no esquecimento.

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