Publicado em: 31/08/2016 13h34 - Atualizado em 02/09/2016 17h55

A Arquitetura como testemunha "ocular" da História - parte 2

Carlos Gustavo Nóbrega de Jesus é Superintendente da Fundação Pró-Memória e Doutor em História Cultural e Pesquisador da Unicamp/IFCH

Na coluna passada escrevi sobre os indícios presentes na Fazenda Cachoeira do Jica que nos possibilitam a levantar a hipótese a respeito da grande produção açucareira da nossa cidade no passado, no entanto a relevância histórica da construção é tão ampla, que sua arquitetura marca, também, outros três períodos econômicos e sociais de nossa história que se intercruzam e se complementam, o dito ciclo cafeeiro, a migração ( principalmente de mineiros para nossa região ) e a imigração da mão de obra estrangeira para trabalhar nos campos de café.
Essas, talvez, sejam as justificativas para encontrarmos entre as paredes de taipa a inserção de tijolos, resultado de alguma reforma posterior à construção original, já no ciclo cafeeiro, pois como afirma Carlos Lemos (1999, p. 225) "o café foi o responsável direto pela chegada do tijolo entre nós". Provavelmente, outra evidência dessa transformação é adição de um jardim murado que passou a cercar a sede e o trabalho de cantaria presente em sua base. Tal embasamento de pedras marca a influência da Arquitetura Mineira em tal edificação: "Essa mescla de técnicas utilizadas reflete a grande presença de mineiros numa região que, até o final do século XVIII, era ocupada maciçamente por paulistas. Passados mais de meio século de convivência entre os dois povos, as técnicas construtivas foram se adequando uma à outra". (BENINCASA, 2001, p. 196)".
Técnica muito utilizado na região do Vale do Paraíba, mas que se fez presente também no vale do Tietê, principalmente na região de Campinas. Além da sede da Cachoeira do Jica, tal técnica foi empregada também na fazenda Taipas (atual Vila Manresa em Itaici) de propriedade de seu irmão João Tibiriçá Piratininga. Tais ornamentos segundo os especialistas também fizeram parte de mais uma das adaptações que o ciclo cafeeiro empreendeu às casas da época do açúcar. Além disso, a influência da mão de obra imigrante em tais mudanças não deve ser desconsiderada já que ocorreu a "vinda maciça de imigrantes do sul da Europa para o trabalho nos cafezais, dentre eles trabalhadores da construção civil, conhecedores de uma arquitetura carregada de elementos classicistas". (BENINCASA, 2001, p.189).
Tal situação ganha uma maior relevância se levarmos em consideração que as pedras utilizadas no embasamento do casarão são semelhantes às utilizadas em pequenas casas presentes nas cercanias da sede, possivelmente casas de colonos italianos que estiveram presente na região.
A presença de outra técnica também pode ser notada na própria parede interna do embasamento que apresenta um tipo de técnica construtiva de terra muito rara no Brasil e peculiar na Europa, principalmente Itália, utilizada nos muros defensivos de antigas cidades, a taipa ciclópica, técnica que mistura de taipa de pilão com pedra. Em virtude de tudo isso pode-se dizer que a Sede da Fazenda Cachoeira do Jica e seu entorno com as casas de Pedras ainda mantém a sua originalidade, por isso penso que deva ser preservado, antes que as suas características possam desaparecer, correndo o risco dos indaiatubanos perderem parte de sua de memória e história.

Veja Também:

Mais lidas
Filmes em cartaz
  • STAR TREK: SEM FRONTEIRAS
  • UM NAMORADO PARA MINHA MULHER
  • O SONO DA MORTE
  • PETS - A VIDA SECRETA DOS BICHOS
  • NERVE - UM JOGO SEM REGRAS
  • ÁGUAS RASAS
  • BEN-HUR
  • QUANDO AS LUZES SE APAGAM
  • ESQUADRÃO SUICIDA
  • MEMÓRIAS SECRETAS
  • O HOMEM NAS TREVAS