Publicado em: 15/09/2016 12h00 - Atualizado em 16/09/2016 20h58

A História vista baixo

Carlos Gustavo Nóbrega de Jesus é Superintendente da Fundação Pró-Memória e Doutor em História Cultural e Pesquisador da Unicamp/IFCH

Carlos Gustavo Nóbrega de Jesus
O termo "a história vista de baixo" foi criado pelo historiador inglês E. P. Thompson em artigo publicado em 1966, no qual salientou a importância da história das pessoas ditas comuns. Tal proposta já tinha sido evidenciada três anos antes em sua obra clássica A formação da classe operária inglesa, na qual ele deixou claro seu intuito em procurar "resgatar o pobre descalço, o agricultor ultrapassado, o tecelão do tear manual obsoleto, o artesão utopista (...)" (THOMPSON, 1987, p. 12-13).
Tal discussão ocorria num momento dentro das ciências humanas em que se discutia e se colocava à prova teses tidas como absolutas como a ideia de "povo civilizado" ou da dicotomia entre cultura popular e erudita. No caso desta última o argumento era de que as práticas sociais eram marcadas por desníveis culturais, ou seja, priorizava-se a valorização de uma cultura em detrimento da outra. Dentro dessa visão dialética era possível salientar a ideia de influência cultural, situação questionável, pois tal argumentação parte de juízos de valores que permitem denominar uma prática cultural superior, ou seja, de caráter transformador e mais eficiente, que pode sobrepor a uma outra menos importante e ou com menor impacto social.
Nos anos de 1970 historiadores como o italiano Carlo Ginzburg e o francês Roger Chartier passaram a questionar tal proposta. Principalmente, o primeiro admitiu algumas especificidades culturais de classes sociais distintas, no entanto esclareceu que estas não eram estáticas, ou seja, as práticas culturais podem circular entre as classes, inclusive sendo apropriadas, tanto por uma como por outra classe.
O fator social e/ou econômico não é determinante para fazer de uma cultura ou uma prática (pelo mero aspecto de pertencer a uma classe social e economicamente mais abastada) melhor e mais influente que a pertencente a uma classe economicamente menos favorecida. Hipótese altamente válida no meu ponto de vista, pois se não fosse assim como explicar as composições de Cartola, músico do morro da Mangueira, semianalfabeto, que boa parte de sua vida lavou carros para se sustentar, mas que depois influenciou a música popular brasileira feita pela classe média, como por exemplo as composições de Chico Buarque e Cazuza.
Mas o questionamento que fica é, como tais indagações que há quase meio século balizaram as discussões teóricas das ciências humanas se refletiram no nosso ato de pensar e estudar o passado? Essa é uma questão a ser respondida na próxima coluna.

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