Publicado em: 14/10/2016 09h58 - Atualizado em 14/10/2016 20h39

A mentalidade conservadora e a "questão do outro"

Carlos Gustavo Nóbrega de Jesus é Superintendente da Fundação Pró-Memória e Doutor em História Cultural e Pesquisador da Unicamp/IFCH

Na coluna passada ressaltei o trabalho de historiadores profissionais nas últimas décadas, o que possibilitou uma mudança significativa no conhecimento do nosso passado, justamente por valorizar o "sujeito histórico comum" e a "história vista de baixo", dando voz aqueles grupos sociais que por muito tempo foram vistos como coadjuvantes pelo estudo histórico, ou para "as experiências históricas daqueles homens e mulheres, cuja existência é tão frequentemente ignorada e tacitamente aceita ou mencionada apenas de passagem na principal corrente da história (SHARPE, 1992, p.41)". Mas se na historiografia tivemos tal avanço, não se pode dizer o mesmo das mentalidades sociais, que se mantiveram e ainda se mantém numa plataforma conservadora, calcada na ideia de que sua memória e história é mais importante do que a do outro, e por isso é passível de preservação e divulgação. A máxima "sabe com quem você está falando" que já foi ouvida por todos leitores em diferentes situações, representa bem tal postura, tão evidente no nosso país. Na situação de funcionário público já ouvi várias vezes essa frase de pessoas ou grupos que queriam algum tipo de privilégio no atendimento de suas reivindicações, pelo simples fato de ser de família tal ou amigo de alguém, e por isso se julgava mais importantes dos demais ao ponto de ter suas vontades (na maioria das vezes pessoais) concretizadas em detrimento das do outro. Quando ouviam que as atividades da Fundação eram públicas, ou seja, todas as solicitações de serviços da instituição independiam de classe, cor, condição social, equivocadamente evocavam o entendimento vulgar do que é público: "mas aqui é público, tenho que ter minhas solicitações atendidas, pois pago impostos". Diante de mais uma negativa (resumida na resposta de que "por ser de todos e por servir a todos é que as regras da estância pública devem ser respeitadas), apela-se para uma terceira e mais popular via do conservadorismo brasileiro, o velho e bom "jeitinho".
Tal iniciativa calcada em se dar bem à custa do outro, é erroneamente vista como sinal de malandragem, quando, na verdade, deveria ser vista como um mal social, pois se vivemos em sociedade é de interesse, até dos menos altruístas, que todos dessa sociedade estejam bem. Mas até tal prática é histórica, e está arraigada numa mentalidade conservadora, que por sua vez, guarda resquícios de uma da sociedade colonial, desigual, personalista e agrária que se ergueu às custas da exploração, primeiro do escravo (indígena e africano) e depois das classes sociais subalternas, que tinham uma única coisa a vender, a sua força de trabalho. Mas essa é uma discussão para uma próxima coluna.

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