Publicado em: 27/10/2016 09h00 - Atualizado em 28/10/2016 19h31

O Brasil e suas Velhas Raízes

Carlos Gustavo Nóbrega de Jesus é Superintendente da Fundação Pró-Memória e Doutor em História Cultural e Pesquisador da Unicamp/IFCH

Na última coluna, escrevi sobre a mentalidade conservadora que assola as práticas sociais no nosso Brasil em pleno século XXI. Terminei o artigo defendendo a ideia que esta forma de pensar e agir de boa parte de nossa sociedade está ligada a uma tradição oligarca agrária colonial pautada em valores personalistas e patrimoniais. Destaquei, também, em colunas passadas, que as mentalidades são estruturas de longa duração, ou seja, de mudanças lentas, o que justifica o fato de, ainda, compartilharmos de tais posturas mais que centenárias.
Sergio Buarque de Holanda, nos anos 1930, já chamava a atenção para tal problemática em sua obra clássica Raízes do Brasil (1936), na qual salienta o processo de transição do modelo nacional agrícola oligárquico e patriarcal para o urbano industrial da Era Vargas. Para ele, nessa transição haviam ficado resquícios sociais e culturais das velhas mentalidades, representadas pelo patriarcalismo e patrimonialismo, que se encaixaram rapidamente nas estruturas econômicas e políticas modernas do nacional-desenvolvimentismo.
Desta forma, se mostravam inovadoras em tais campos, mas conservadoras nas mentalidades que eram pautadas por uma cultura de matriz arcaica e personalista. Tal tese fica ainda mais clara quando Sérgio Buarque discute o conceito de cordialidade do brasileiro, emprestando o termo Homem Cordial de Rui Ribeiro Couto. Diferentemente do que muita gente pode pensar, o termo tal como usado por Buarque não conferia um sentido positivo à cordialidade, mas sim se transmutava numa crítica a tal prática, que entre outras iniciativas se resumia no fato de transportar para a esfera pública a afabilidade, o personalismo e a cumplicidade da vida familiar.
Situação um tanto quanto contraditória na sua visão, pois de acordo com suas próprias palavras: "O Estado não é uma ampliação do círculo familiar (...) Não existe, entre o círculo familiar e o Estado, uma gradação, mas antes uma descontinuidade e até uma oposição". (HOLANDA, 1971, p.101). Mas para ele, essa oposição não era entendida pelo homem cordial, para o qual há uma extensão natural entre os planos públicos e privados.
Deve-se destacar que estamos comemorando os 80 anos da publicação de Raízes, sendo assim pode-se dizer que ele escreveu no calor da mudança da chamada República Velha para o Estado Novo de Vargas. Mas a questão que fica é: porque tal discussão é tão atual? Um questionamento relevante para o momento que estamos vivendo no nosso país e que deixo para o próprio Sergio responder, com as seguintes passagens: "A ideologia impessoal do liberalismo democrático jamais se naturalizou entre nós (...) A democracia no Brasil sempre foi um lamentável mal-entendido. Uma aristocracia rural e semifeudal importou-a e tratou de acomodá-la, onde fosse possível, aos seus direitos ou privilégios" (HOLANDA, 1971, p.119).

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