Publicado em: 23/11/2016 16h55 - Atualizado em 25/11/2016 19h34

O Brasil e suas velhas raízes 3

Carlos Gustavo Nóbrega de Jesus é Superintendente da Fundação Pró-Memória e Doutor em História Cultural e Pesquisador da Unicamp/IFCH

Carlos Gustavo Nóbrega de Jesus
Com o início do mundo urbanizado, a partir da segunda metade do século XIX no Brasil, novas concepções a respeito do panorama econômico brasileiro aberto ao mercado de capitais, tomam conta do país. Inclusive Sérgio Buarque de Holanda, salienta que o Banco do Brasil foi criado para o aproveitamento de tais recursos advindos do fim do tráfico negreiro em 1851: "na organização de um grande instituto de crédito". (HOLANDA, 1971, p.44). Nessa nova perspectiva entrava em conflito duas visões de mundo, uma calcada pelo investimento em capitais não palpáveis, como ações, e outra na ideia da posse da terra e da mão de obra escrava como sinônimos de riqueza. Para o nosso autor esse simples conflito "já parece denunciar a imaturidade do Brasil escravocrata para transformações que lhe alterassem profundamente tal fisionomia".
E, mesmo assim, quando não há mais a possibilidade de tal resistência, o que se nota no nosso país é a luta de tais senhorios rurais para não perder sua posição privilegiada e singular diante desse "novo" mundo, se encaixando em ocupações "nitidamente citadinas, como a atividade política, a burocracia, as profissões liberais". E é bem compreensível que semelhantes ocupações venham a caber "em primeiro lugar, à gente principal do país, toda ela constituída de lavradores e donos de engenhos. E que, transportada de súbito para as cidades, essa gente carregue consigo, a mentalidade, os preconceitos e, tanto quanto possível, o teor de vida que tinham sido atributos específicos de sua primitiva condição (...) O trabalhador mental, que não suja as mãos e não fatiga o corpo, pode constituir, com efeito, ocupação em todos os sentidos digna de antigos senhores de escravos e dos seus herdeiros ". (HOLANDA, 1971, p.50). Assim, de acordo com já escrevi colunas passadas, se as estruturas das mentalidades são estruturas de longa duração e de mudanças lentas, tais pressupostos da herança rural não desaparecerão tão cedo, se mostrando presentes na nossa classe urbana, principalmente média e política, que a todo momento buscam privilégios para os mais próximos, possivelmente familiares e amigos; dirigem olhares preconceituosos àqueles que não sobrevivem do trabalho mental e que, por fim, tem diluído em suas atitudes, práticas de uma sociedade erguida sobre o trabalho escravocrata calcado na (in) diferença e exploração do outro.
Desta forma aqui finalizo, muito timidamente nessa coluna a jornada comemorativa de 80 anos de um clássico de nossa historiografia e aproveito para lembrar que, num momento que nossa sociedade de característica despolitizada resolveu discutir de forma mais aprofundada a política nacional, a leitura de Raízes Brasil não poderia ser mais atual e recomendada.

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