Publicado em: 11/11/2016 15h09 - Atualizado em 11/11/2016 20h48

O Brasil e suas velhas raízes 2

Carlos Gustavo Nóbrega de Jesus é Superintendente da Fundação Pró-Memória e Doutor em História Cultural e Pesquisador da Unicamp/IFCH

No último artigo, apresentei a discussão a respeito do conceito de "homem cordial" dado por Sérgio Buarque de Holanda em sua célebre obra Raízes do Brasil, que completa 80 anos de sua primeira publicação em 2016. O conceito pode-se resumir grosseiramente à prática, que dentre outras iniciativas, se resume no fato de transportar para a esfera pública a afabilidade, o personalismo e a cumplicidade da vida familiar.
A condição para a formação desse "homem cordial" brasileiro está ligada às questões das mentalidades, que são estruturas de longa duração e por isso de mudanças lentas, situação que nos faz sentir, ainda hoje, a presença de práticas e iniciativas da herança colonial, ou o que Sérgio Buarque de Holanda denominou "Herança Rural". Conceito que não está ligado, necessariamente à questão agrícola, mas sim a um modelo rural implantado pelo português colonizador, baseado não só no latifúndio, mas, principalmente, no modelo personalista e patriarcal que caracterizava tal sociedade.
"É efetivamente nas propriedades rústicas que toda a vida da colônia se concentra durante os séculos iniciais da ocupação europeia: as cidades são virtualmente, se não de fato, simples dependências dela" (HOLANDA, 1971, p.41). Desta forma, pode-se dizer que o processo de urbanização dá seus primeiros indícios com a vinda do Corte em 1808 e ganha impulso, principalmente a partir de 1851, quando funda-se o Banco do Brasil, no ano seguinte quando inaugura-se a primeira linha telegráfica na cidade do Rio de Janeiro, e em 1854, quando abre-se ao tráfego a primeira linha de estradas de ferro do país, o que não significa que a presença rural deixa de ser sentida nos novos espaços urbano de então.
No entanto, tal dependência econômica e estrutural dos séculos iniciais da colonização vai ser transposta para a questão das mentalidades e práticas políticas que se mostram a partir das organizações comerciais e econômicas, que passam a ser constituídas à semelhança "das famílias, precisamente das famílias do estilo patriarcal, onde os vínculos biológicos e afetivos que unem ao chefe os descendentes, colaterais e afins, hão de preponderar sobre as demais considerações. Formam, assim, como um todo indivisível, cujos membros se acham associados, uns aos outros, por sentimentos e deveres, nunca por interesses ou ideias" (HOLANDA, 1971, p.47).
Deve-se deixar claro aqui que a ideia que o autor quer passar a partir do termo "interesses" é, na verdade, a busca de objetivos concretos e não interesses pessoais. Nesse sentido, a preponderância de tais interesses individuais sobre os interesses coletivos é que vai refletir a "Herança Rural", patriarcal e personalista na sociedade moderna contemporânea, fazendo eco até os dias de hoje tanto nas práticas cotidianas, quanto nas iniciativas políticas. Nessas últimas representadas por fisiologismos e coalizões partidárias artificiais, financiamentos privados de campanhas políticas, benefícios e nepotismo, que tanto marcaram e marcam a cultura política brasileira.

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