Publicado em: 08/12/2016 17h01 - Atualizado em 21/12/2016 14h53

A questão do testemunho

Carlos Gustavo Nóbrega de Jesus é Superintendente da Fundação Pró-Memória e Doutor em História Cultural e Pesquisador da Unicamp/IFCH

Um dos projetos da Fundação Pró-Memória é tomar testemunhos orais para assim documentar as várias percepções da memória a respeito do passado da cidade de Indaiatuba. Prática feita desde os primórdios da instituição nos anos 1990, que nos possibilita ter um relevante banco de depoimentos orais no Arquivo Municipal.
Mas o uso do testemunho como fonte histórica é uma prática relativamente recente na disciplina histórica, que passou a ser reconhecido como tal a partir dos anos 1960, com o crescimento da chamada história do tempo presente, ou seja, o estudo do passado recente ou imediato como objeto da História.
Tal ramo da história ganhou espaço a partir do momento que se passou a questionar a ideia de que o acontecimento, para ser objeto da História, deveria já estar arquivado e organizado a partir de documentos escritos, o que reduziria a possibilidade de equívocos.
Uma ilusão ingênua de uma exatidão cartesiana que não é própria das ciências humanas, mas que começou a dissipar-se assim que a comunidade historiográfica se conscientizou de que uma objetividade absoluta é improvável na disciplina histórica, já que o historiador é subordinado ao seu tempo, e escreve sobre o passado a partir da cultura, da política e das impressões de uma determinada época e espaço, ou seja, de um contexto específico.
Essa situação marca de vez o rompimento com o fato de que só se faz História a partir de um distanciamento temporal considerável, como se esse distanciamento garantisse a credibilidade da análise dos fatos. Tais conclusões teóricas possibilitaram com que historiadores compartilhassem com os jornalistas o estudo da contemporaneidade, no entanto, diferentemente destes, buscando no tempo curto, não a verdade absoluta dos fatos, mas sim as várias impressões a respeito deste fato.
É a partir desse momento que se passou a valorizar as experiências individuais, deslocando-se dos interesses das estruturas para as situações singularmente vividas, dando espaço, assim, aos testemunhos individuais do passado. Aos poucos as fontes escritas perdiam a áurea de passaporte único para o passado, e o historiador deixou de ser visto como mero decifrador de documentos para ganhar espaço na pesquisa dita de campo, podendo trabalhar, também, com os vivos e não com só com os mortos. Mas, para tanto, ele precisava de um novo método, nesse momento é que se dá o surgimento da história oral.

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