Publicado em: 21/12/2016 15h39 - Atualizado em 22/12/2016 17h47

A história oral como prática

Carlos Gustavo Nóbrega de Jesus é Superintendente da Fundação Pró-Memória e Doutor em História Cultural e Pesquisador da Unicamp/IFCH

Na coluna passada, discuti como o testemunho oral virou objeto da história. Hoje, vou começar uma série de artigos a respeito da prática historiográfica de documentar tal testemunho, que é convencionalmente denominado história oral.
Antes de tudo, deve-se salientar que tal método é reflexo do diálogo com outras áreas das ciências humanas como a antropologia e, principalmente, a sociologia e seus métodos, como por exemplo, a análise de campo e a sociologia participativa, que como história oral parte de uma interação direta com o indivíduo.
Essa relação dá ao método um caráter interdisciplinar, indo além do campo meramente histórico. Nunca é demais destacar que ouvir testemunhas já era uma prática utilizada por historiadores da antiguidade como Heródoto, e que pesquisadores da sociologia da escola de Chicago, nos anos 1920, já compartilhavam de experiências semelhantes.
No entanto, vai ser a partir do uso disseminado do gravador com fita que a prática vai ganhar contornos mais técnicos, a ponto de em 1948 fundar-se, na Universidade de Columbia, o Oral History Research Office, o primeiro programa de pesquisa em História Oral. O objetivo era gravar o máximo de entrevistas possíveis com personalidades da história norte-americana para deixar tal legado para as próximas gerações.
No entanto, um dos problemas dessas primeiras práticas institucionalizadas de História Oral era a questão da transcrição, ou seja, o ato de passar para o papel a entrevista, uma das tarefas mais complicadas do método, pois carrega consigo muito da subjetividade do entrevistador, mas deve, de alguma forma, refletir a subjetividade do entrevistado. Situação delicada para os primeiros historiadores norte-americanos que entendiam tal fase do trabalho como o único e verdadeiro documento histórico, deixando a entrevista em si em segundo plano. Contrariamente, nesse caso, deve-se entender o todo como documento, ou seja, a gravação e a escrita, como parte da mesma fonte, buscando, a partir daí, ajustar ao máximo a transcrição ao áudio, tentando, assim, capturar as evidências e sinais.
Por exemplo, na maioria dos casos, o silêncio diz muita coisa e deve ser traduzido de alguma forma para a narrativa escrita, sempre buscando o que chama de "conferência de fidelidade", que consiste em ouvir várias vezes a entrevista, relacionando-a com o transcrito para suprir os mínimos detalhes. No entanto, por mais fiel que o entrevistador possa ser, ele não consegue se anular totalmente, o que faz da entrevista oral um trabalho de dupla autenticidade; a do entrevistador e do entrevistado. O que confere ao uso de tal fonte e método um cuidado redobrado do historiador-pesquisador.

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