Publicado em: 01/12/2016 12h57 - Atualizado em 02/12/2016 11h15

Major, uma figura emblemática da política

Major Alfredo de Camargo Fonseca foi prefeito reeleito por todo o período da República Velha

Fernanda Bugallo
Acervo Pró- Memória Major, Christiano Steffen, Joaquim de Alvarenga, Ambrósio Lisoni e Antonio Pinheiro
Durante 26 anos à frente da administração da cidade de Indaiatuba, sendo 25 anos como intendente e apenas um ano sendo prefeito nomeado, o Major Alfredo de Camargo Fonseca é uma das figuras mais emblemáticas da política da cidade.
O Major Alfredo foi prefeito reeleito por todo o período da República Velha. Durante esse período, foram criadas as torneiras públicas, o código de posturas municipal foi atualizado e foi inaugurada a rede de iluminação elétrica, substituindo os lampiões que a Câmara havia instalado em 1887.
Nunca foi casado, teve amantes no decorrer da vida e firmou-se com dona Chiquinha por mais de 20 anos. Com bengala nas mãos, o Major era bem quisto por onde passasse. Conversava com todos na praça do Lago e, de acordo com relatos de Hélio Milani à Fundação Pró-Memória, o Major foi um homem muito honesto para a cidade.
Filho de Humberto Milani e Cleofas Mosca Milani, nascido em Indaiatuba pela parteira Dona Emília e recebido com um litro de vinho do porto jogado em seu corpo. Essa foi a chegada do recém-nascido Hélio Milani no dia quatro de outubro de mil novecentos e vinte e cinco.
Embora nascido na cidade de Salto, o pai de Hélio mudou-se para Indaiatuba e permaneceu com a profissão de barbeiro. "Ele sempre foi barbeiro e barbeiro dos bons. Ele era o barbeiro da época da lata sociedade", conta Hélio.
Vereador de 1956 a 1959 e presidente da Câmara, Hélio Milani conheceu e vivenciou muito da história de Indaiatuba. Faleceu em 13 de junho de 2012 por conta de problemas respiratórios e uma parada cardíaca.
Vida de engraxate
"O Hélio, tá engraxando. Tô Major! Então engraxe a minha. Era bonita, então ele pôs a butina dele né, eu levava cadeira", conta Hélio durante a entrevista relembrando diálogo que tivera com o Major.
O ex-presidente da Câmara conta que era ótimo engraxate e que o trabalho dele custava 400 réis. "E ele me deu mil réis". Foi exatamente esse valor que Hélio recebeu do Major Alfredo ao engraxar o seu sapato. "No segundo dia, engraxei o do Toninho Zoppi, Toninho Rêmulo, e assim foi e depois eu ia todo domingo engraxar sapato".
O trabalho de Hélio como engraxate durou um ano e acontecia na praça, embaixo das árvores no ponto de ônibus.

Pista de pouso na Revolução

Durante a Revolução de 1932, o Major Alfredo era o prefeito da época. Em apenas uma semana, construíram um campo de aviação entre as fazendas dos Amarais e de Indaiatuba para pousarem aviões do Estado de São Paulo na Revolução. O objetivo da construção, de acordo com a entrevista, era de que fazia-se necessário ter um aeroporto intermediário.
Segundo consta da documentação do acervo, a pista de pousos tinha cerca de 900 metros de altura por 30 a 40 metros de largura. "Ela começava aqui nos eucaliptos e terminava lá no Grischek (empresa alemã)", explica Hélio.

Perseguição religiosa dificultava o trabalho do Major

Segundo consta na entrevista realizada com Milani, o Major Alfredo chegou a ser perseguido na cidade por conta de sua religião. E tal perseguição dificultou o trabalho político realizado pelo Major na cidade.
De acordo com Hélio, o Major era presbiteriano e frequentava a Igreja Presbiteriana de Indaiatuba, que ficava na Rua Bernardino de Campos. O Major sempre estava no culto com a bengalinha dele.
Segundo consta, a perseguição religiosa ocorreu por conta de um padre espanhol da cidade. "Porque nós tivemos um padre mor*** aqui em Indaiatuba, porque você sabe, nada tem a ver a religião com o padre. Era um padre espanhol, Padre Luís Soriano. Ele pegava o púlpito na igreja e dizia: "Não pode votar nessa gente! Tem que votar contra", recorda Hélio na entrevista. E ele ainda completa que o padre espanhol espalhava para seus fiéis que as pessoas que eram protestantes eram demônios.

Enérgico, mas determinado e um bom administrador

Milani sempre elogiava muito a conduta e posicionamento pessoal e político do Major Alfredo em Indaiatuba. "O Major Alfredo de Camargo Fonseca, na minha opinião, foi uma bandeira pra esta terra! Era um homem de integridade moral".
Major cuidava muito bem das terras de Indaiatuba e supervisionava tudo o que acontecia. "Não podia pisar na bola com ele, porque ele era muito duro mesmo; o que era da cidade, era da cidade".
O ex-presidente da Câmara conta que algumas vezes o Major efetuou o pagamento dos colaboradores da Prefeitura com o próprio dinheiro. "Eu me recordo que quantas vezes o Odilon ia pra Campinas, naquele tempo eles iam de ônibus, ele o Angelin Bruni; pegavam o cheque do Major, aquele 'checão' grande do Banco Comercial do Estado de São Paulo. Então não tinha dinheiro, e ele fazia o cheque dele, e o Odilon com o Angelin Bruni iam de ônibus, pegavam o dinheiro lá e traziam pra fazer o pagamento do pessoal", relata. "Quando que ele foi restituído? Nunca! O município não tinha arrecadação! Era uma porcaria!"
Odilon era cunhado de Hélio e foi contador da Prefeitura, na época do Major Alfredo, e o Angelo Bruni era o tesoureiro.

Histórias da administração e os amores de Fonseca

Além de tudo, o Major ainda destrinchou o famoso crime do poço que ocorreu em Indaiatuba e chocou a cidade por décadas depois, virando, inclusive, um livro assinado pela historiadora Eliana Belo. "O Major tinha um sexto sentido, era um homem muito inteligente, ele era um administrador nato, acostumado a lidar até com escravos e tudo", afirma Milani.
A patente do Major dele provém da época do Império. "O pai dele deve ter recebido esses títulos no tempo do im-perador Dom Pedro II. Ele nasceu por volta de 1864, e deve ter recebido isso mocinho, influências das famílias", conta Milani.
Se por um lado o Major era um bom administrador, Hélio também contou durante a entrevista dos amores escondidos que o Major carregou durante a vida.
Milani conta que o Major nunca foi casado e que mais tarde se amasiou com a dona Chiquinha. "Ele teve amantes como a famosa Maria Laura e a Dona Teodora. Diziam que ela era muito bonita".
Pelo relato, a relação amorosa do Major com dona Chiquinha durou cerca de 20 anos.
Por conta da idade, foi solicitado o afastamento do Major e ele fez uma declaração pública oficial no Estado de São Paulo "Isso saiu no Diário Oficial da época, em função da integridade dele como homem público. Pôs no Diário Oficial do Estado", conta Hélio.

Em 1941, morre o prefeito e, na sequência, a companheira

No dia 4 de abril de 1941 a notícia se espalha: morreu o Major e morreu dona Chiquinha! Ele morreu primeiro que ela. Ela foi em seguida.
Hélio conta que a notícia foi uma tristeza na cidade, principalmente pra os amigos do Major. "Foi alegria para os inimigos, porque o Major tinha adversários leais, mas tinha inimigos ferrenhos, como o Scyllas e a família inteira do Scyllas Sampaio. Diziam que o Major não fez, que o Major não tinha iniciativa, que o Major era ignorante. Absolutamente! O Major fez um levantamento da água aqui em 1928 pra pôr água em Indaiatuba. Só que ele não tinha condição".
O Major, segundo as pessoas contam no relato de Milani, era dono de uma ou duas fazendas no município de Indaiatuba. "Quando ele morreu quase que precisou fazer 'vaca' pra fazer o enterro dele. E o túmulo dele ficou abandonado por muito tempo".

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