Publicado em: 05/01/2017 13h01 - Atualizado em 06/01/2017 20h44

A Memória Oral

Carlos Gustavo Nóbrega de Jesus é Superintendente da Fundação Pró-Memória e Doutor em História Cultural e Pesquisador da Unicamp/IFCH

A prática de colher depoimentos para entender o passado, denominado na disciplina histórica de história oral, trabalha com algo que denominamos memória oral, ou seja, lembranças, ressentimentos e até esquecimentos de uma determinada experiência social e que, por ser muito singularizada, não deve ser tomada como visão única do passado. Por outro lado, não deve ser desprezada, pois o passado é feito a partir dessas diversas experiências em conjunto.
Assim, pode-se dizer que o relato pessoal auxilia a exprimir uma experiência coletiva, daí a importância dos estudos biográficos para além dos biografados. Situação esta que ajudou a democratizar o estudo do passado, pois a partir de tal proposta, o maniqueísmo que envolve a vida social se perde, pois os relatos tanto dos vencedores e explorados, independente de classes e ideologias, têm sua relevância e contribuição para se entender um determinado momento e/ou prática social.
No entanto, deve-se tomar cuidado em dar um caráter fulgurante à história oral como se fosse capaz de fazer justiça, dando voz aos vencidos ou sendo a única forma daqueles "vistos de baixo", ou a minoria, serem ouvidos. Tal visão carrega dentro si uma própria contradição (se não quiser falar de pré-conceito), baseado no fato de que essa parcela da sociedade não pode se expressar por si só.
Além disso, deve-se estar atento ao fato, levantado na coluna anterior, de que a história oral é uma prática de autenticidade dupla, o que nos faz questionar se aquilo que vai ser transformado em registro é o que realmente esse grupo quer falar, ou está relacionado ao que o entrevistador quer ouvir? Por isso, deve-se esclarecer que a entrevista e a sua transcrição não são a própria História. Elas devem ser interpretadas, comparada com outras fontes e problematizadas.
É recorrente, até em trabalhos acadêmicos, o fato de, depois de ter transcrito a entrevista, o historiador achar que seu trabalho chegou ao fim, e contribuiu para um entendimento do passado. Ledo engano! Isso é só o começo para quem pretende fazer um trabalho historiográfico sério, abarcado nos testemunhos orais, pois suas transcrições não deixaram de ser fontes históricas e, em vista disso, devem ser problematizadas e não tomadas como uma estância do real.
Memória, mesmo oral, não é História, mas sim a retenção das experiências vividas que tem como seu suporte os documentos e as fontes históricas, estando por isso, diferentemente da História inconsciente das deformações causadas pelos traumas, emoções e ressentimentos.

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