Publicado em: 19/01/2017 13h25 - Atualizado em 20/01/2017 20h01

Apenas um testemunho e a função prática do historiador

Carlos Gustavo Nóbrega de Jesus é Superintendente da Fundação Pró-Memória e Doutor em História Cultural e Pesquisador da Unicamp/IFCH

Terminei a coluna passada diferenciado a memória oral de História. Como disse anteriormente, o trabalho de memória ocorre inconscientemente das deformações das emoções, dos ressentimentos e dos traumas. O papel do historiador é enxergar tais deformações, não vistas pelos memorialistas, que na verdade são aqueles que descrevem a memória, os documentos ou os testemunhos sem levar em conta tais condicionantes, entendendo tais estâncias com as próprias esferas do real.
No meu ponto de vista, a função do historiador, nesse sentido, está ligado muito mais à sua prática do que sua formação. Há muitos historiadores de formação que fazem papel de memorialistas e vice e versa. Podemos falar que Sérgio Buarque não era historiador pelo simples fato de ter se formado em Direito? Ou mesmo do professor do Departamento de História da Unicamp, Edgar De Decca, que é formado em Física? O que falar do nosso Antonio da Cunha Penna, que nunca frequentou um curso de História, mas fez um excelente trabalho de história oral no seu Tipos Populares?
Três exemplos de historiadores definidos pela prática e não formação. Todos eles enxergam de uma forma ou de outra a diferença entre história e memória e as armadilhas que tal diferença pode trazer. Defensores do nazismo e do regime Civil-Militar utilizam tal discussão para defender teses estapafúrdias do tipo "O Holocausto nunca aconteceu" ou "não houve tortura no regime militar".
Nesse caso, se apropriam de memórias que lhes interessam, negligenciam a história e suas práticas, em favor de um discurso político e ideológico. Para responder tais barbaridades é que o historiador italiano Carlo Ginzburg escreveu um artigo famoso nos anos 1990, denominado Somente um Testemunho, calcado no fato de que apenas um testemunho já pode contribuir para um fato não ser esquecido, ou seja, ele não quer dizer que o testemunho é a comprovação do real, como querem os negacionistas (negadores do Holocausto), mas sim que, o testemunho pode contribuir, a partir do fazer historiográfico, para chegar o mais próximo de tal realidade.
Isso só deve ocorrer a partir de cruzamento de fontes e práticas próprias da história. Os exemplos claros de tal procedimento estão nos próprios estudos do Holocausto e da tortura do Regime Militar, situações possíveis de se estudar apenas a partir do diálogo de fontes oficiais, como da polícia nazista e da polícia brasileira (documentação do DOPS), com os testemunhos orais dos sobreviventes, já que nos primeiros não há evidência nenhuma de torturas, pois os códigos cifrados era a tônica de tais escritos.
Por exemplo, sabemos hoje que o termo "solução final" seria o extermínio judeu devido a esse diálogo entre documentos escritos e testemunhos orais. Assim, se a memória não é História, também pode-se dizer que não há História sem Memória. (Nesse caso, também indico, para quem se interessar, o filme Menino 23).

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