Publicado em: 31/05/2017 14h08 - Atualizado em 02/06/2017 15h40

Mendicância do amor

Paulo Antolini é psicólogo, psicoterapeuta, practitioner de programação neurolinguística, administrador e consultor de empresas. Fones: (19) 3834-8149 / (19) 99159-2480 Email: paulo.salvio@terra.com.br

Joelma estava há meses em processo psicoterápico. A temática girava sempre ao redor de sua vida afetiva, trazia relatos que não eram condizentes com os "desarranjos" emocionais que apresentava.
Ao dizer a ela que me sentia confuso com o quadro que descrevia, pois eles não traziam a consistência do relatado, ela disse de chofre: "Eu me sinto uma mendiga do amor.", após o que desabou em choro convulsivo. Silêncio que só era quebrado pelos seus soluços, foi gradativamente diminuindo a intensidade com que deixava vazar sua dor e continuou: "Todos esses meses venho aqui e fico tentando me enganar, distorcendo meus relatos, e agora vejo que não era para o senhor, mas para mim mesma, admitir isso me dói muito".
Ao conversarmos sobre sua descoberta foi percebendo que não era a única que agia assim. Identificou em sua família os mesmos comportamentos. Sua mãe, uma prima muito próxima e também em algumas colegas de trabalho.
Durante um bom tempo ela tentou se convencer que o que observava nas outras pessoas era diferente do que ela fazia. Em seu caso considerava que estava apenas compartilhando com seu companheiro e também com as pessoas com que convivia, levando em conta os gostos e desejos deles. Não identificava que os nós na garganta e os apertos no peito eram manifestações da opressão que fazia consigo mesma.
Até aquela sessão. Sessão que teve o silêncio ocupando a maior parte do horário. Não era momento de se dizer nada, pois o que havia sido dito por ela iria ainda ecoar por um bom tempo. Era necessário esse silêncio para a interiorização e absorção do descoberto.
Descobrir que praticamente tudo que faz é para agradar os outros e com isso "comprar" sua aceitação e carinho é algo estarrecedor, horrível. Traz junto a descoberta de uma baixíssima autoestima. É descobrir também a inexistência de dignidade pessoal, condição para que exista o respeito próprio.
Nas semanas seguintes ela viveu turbilhões de emoções e descobertas. Percebeu-se distante das pessoas e assustou-se com isso. Porém logo notou que esse isolamento lhe era necessário para se recompor internamente. E isso estava acontecendo.
Conforme foi deixando transparecer seus verdadeiros sentimentos percebeu também que as pessoas se mostravam surpresas, mas aceitando-a em sua nova forma de ser, inclusive sendo elogiada por isso. "Meu marido me disse que não sabia o que estava acontecendo comigo que eu estava diferente, mas que estava gostando muito dessa transformação.".
Joelma é a caricatura de muito de nós, que na busca da aceitação alheia rejeita a si próprios. Alguns se tornam inclusive "pegajosos", outros ficam possessivos ao extremo, outros ainda passam a ser eternos e vorazes cobradores de atenção, pois todos querem obter o retorno por terem renunciado a si mesmos.
"Tentei agradar e ainda me dei mal.". Eis uma frase que se muito repetida deve despertar em quem a diz se não esta tentando "comprar" amor, carinho, atenção.
Fica também um alerta àqueles que sem perceber reforçam esse tipo de comportamento. Como isso ocorre? Quando não é dado o devido reconhecimento às pessoas, quando só acontece se a outra se desdobrar além do normal para ai sim escutar uma palavra de agrado.
Todos necessitamos de aceitação e acolhimento. Todos precisamos reconhecer primeiro nossos próprios valores para não necessitarmos buscá-los doentiamente. Pensem sobre isso.

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