Publicado em: 12/06/2017 15h20 - Atualizado em 12/06/2017 20h17

Como não criar uma geração "e se nada der certo"

Edson De Paula
Divulgação Edson de Paula é psicanalista e especialista em ciência do comportamento
O que é ser bem-sucedido para você? É ter uma empresa, carro importado, independência financeira? Recentemente, um fato gerou polêmica e (má) repercussão nas redes sociais. Tudo começou quando um álbum de fotos, do site de uma escola, sobre uma festa temática "E se nada der certo" veio à tona. Nela, os adolescentes fantasiaram-
se de garis, porteiros, vendedores, caixas de supermercado e outras profissões que, segundo eles, caracterizavam pessoas que "não deram certo" na vida.
Quando o assunto é o futuro dessa geração, especialmente no que diz respeito ao sucesso profissional, não podemos ignorar a influência da internet e de pais protetores ou ausentes como um fator comportamental limitante. O comportamento dos "adolescentes digitais" pressupõe que existe a possibilidade de conquistar tudo rapidamente, de forma instantânea em um "mundo" onde não existem longas filas, nem concorrências acirradas. Existe um "falso senso" do que significa ser "bem-sucedido" nesse mundo virtual: contabilizar likes nas redes sociais e, dessa forma, ser aceito socialmente.
Essa nova geração também tem dificuldade para lidar com perdas e frustrações porque precisam ter respostas e ganhos rápidos, ainda mais se os pais forem protetores ou ausentes. Pais protetores "protegem" seus filhos de possíveis frustrações, assumindo a responsabilidade pelos erros deles, enquanto pais ausentes "reparam sua ausência" mimando seus filhos com tudo aquilo que eles pedem. Então, quando vão para o mercado de trabalho, esses adolescentes esperam o mesmo de seus contratantes: que eles sejam protetores e benfeitores, assim como seus pais. Daí vem a frustração, pois no mundo real ninguém é promovido de uma hora para outra, ninguém inicia uma carreira como diretor ou presidente de uma empresa: é preciso estudar, se capacitar com competências que, muitas vezes, demoram anos para se conquistar. É necessário ter paciência e persistência para obter o sucesso. Portanto, sucesso é uma construção diária.
Alguns adolescentes possuem mais um fator limitante que é uma comunicação intrapessoal muito crítica, eles acham que não conseguem ou não têm tempo a perder com o aprendizado daquilo que é oferecido, afinal aprenderam a ter tudo instantaneamente e, com isso, acabam afastando-
se das oportunidades quando surgem, pois não se acham devidamente preparados ou se colocam acima dos outros.
Quando um desafio surge, se colocam no papel de "vítimas das circunstâncias" e vão justificando os motivos pelos quais acreditam não conseguir superá-lo. Isso acontece não apenas na carreira, mas em situações da vida como sustentar um relacionamento afetivo ou manter uma dieta. É muito comum ouvirmos coisas do tipo "Eu já tentei várias vezes, mas não consigo economizar" ou "Eu não sou capaz de emagrecer", "Não consigo obter sucesso em minha carreira" e, normalmente, apontam o dedo para outras pessoas que são as culpadas pelo seu insucesso.
Segundo pesquisas realizadas pela Universidade da Pensilvânia, 80% da população mundial possui esse tipo de atitude diante dos desafios, o qual é chamado de síndrome da impotência adquirida. Esse comportamento, infelizmente, costuma ser originado na crítica destrutiva por parte dos pais aos seus filhos na infância ou adolescência. Pais muito rígidos exigem demais dos seus filhos e, ao invés de apoiá-los acabam criticando-os, tornando-os temerosos para as situações conflitantes da vida. Esses adolescentes poderão deixar de sonhar se tornando também críticos consigo mesmo e com os outros. Com o tempo, precisarão trabalhar seus medos e dúvidas, reaprendendo a sonhar, idealizando metas em suas vidas para, aos poucos, retomarem sua autoconfiança.
Estamos com uma geração de adolescentes "preparados erroneamente" para serem bem-sucedidos rapidamente na vida. É preciso que os pais auxiliem seus filhos a desacelerar esse ritmo, mantendo-os mais conscientes de sua responsabilidade diária para o alcance dos seus objetivos. Pais educadores auxiliam seus filhos nos momentos de decisão, mas deixam que eles assumam os riscos por aquilo que decidem. Os pais precisam ser educadores, estimular o aprendizado por erros e acertos, fracassos e vitórias ensinando seus filhos a escolher, a tomar uma decisão e seguir em frente com ela. Dessa forma, eles se tornam coparticipantes do sucesso dos filhos, isentando-os de críticas quando fracassam. Esses educadores sabem que são as boas escolhas que definem o sucesso e não as oportunidades, afinal podem existir várias oportunidades na vida, mas se escolhas não forem corretas nada adiantará o esforço e, com isso, seus filhos não obterão o sucesso.
Edson de Paula é
psicanalista e especialista em ciência do comportamento

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