Publicado em: 27/07/2017 15h32 - Atualizado em 28/07/2017 16h05

IPHAN e a contribuição africana na arquitetura

Carlos Gustavo Nóbrega de Jesus é Superintendente da Fundação Pró-Memória e Doutor em História Cultural e Pesquisador da Unicamp/IFCH

A predominância do pensamento histórico de Lucio Costa, tanto nas políticas públicas de preservação do patrimônio histórico edificado brasileiro, quanto na historiografia da arquitetura brasileira, salientadas no artigo anterior, é essencial para entendermos o fato de que, em tais estudos, não se mencione a contribuição africana nas técnicas construtivas, empregadas nas edificações de tradição colonial paulistas, pois a base de toda e qualquer construção epistemológica sobre o tema não poderia fugir de uma ideia pré-concebida, baseada na relevância decisiva da contribuição portuguesa.
Devido a isso, a arquiteta Lia Mayume (2005, p.30) afirma, com propriedade, que a base da historiografia da arquitetura brasileira se apoiou no viés de que o parâmetro para definir o que é nacional era a aproximação e o distanciamento do estilo colonial luso-brasileiro da edificação.
O que pode ser exemplificado nos escritos de Luis Saia, assessor de Mario de Andrade no SPHAN e um dos primeiros a estigmatizar traços da arquitetura paulista a partir da definição de "casa bandeirista", dada à morada rural paulista, a qual dividiu em duas vertentes arquitetônicas, a pura e tardia, deixando evidente o juízo valor de tal definição, pois julgava pura aquela construção que se aproximasse do estilo colonial luso brasileiro do século XVII. (cf. SAIA,1978, p.119-145). Ele chamou a atenção também para importância das técnicas construtivas, que aparecem, isoladamente, como resultante de uma matriz portuguesa ou de uma miscigenação com a cultura indígena (MAYUME, 2005, p.32).
É importante lembrar que essas teses foram direcionadas pela tentativa de forjar a identidade do povo paulista a partir da imagem do bandeirante e do mestiço, situação denotada em outros tempos, mas retomada, a partir dos anos 1940 e 1950. Em 1954, particularmente, nas comemorações do IV Centenário de São Paulo, Luis Saia dirigiu obras de restauração na cidade, entre elas a da casa do Butantã, estudos que depois foram compilados em um livro, A Casa Bandeirista-uma interpretação, de 1955.
Nesse caso, pode-se dizer que a contribuição negra também não foi mencionada. Situação que novos estudos sobre a história da arquitetura já questionam e relacionam à predileção do discurso próprio do SPHAN que, de forma nem um pouco sensata, deixou de levar em consideração a contribuição africana no que deveria ser o patrimônio edificado brasileiro.

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