Publicado em: 14/08/2017 16h26 - Atualizado em 14/08/2017 20h42

Jovens e mercado imobiliário

*Luiz Fernando Gambi
Uma olhada no comportamento da demanda habitacional nos faz perceber um mercado promissor. Recentemente, a pedido do Secovi-SP, a FGV (Fundação Getúlio Vargas) esquadrinhou cenários futuros para o setor imobiliário, levando em consideração variáveis demográficas e socioeconômicas.
A evolução populacional entrou na análise. No período compreendido entre 2015 e 2025, o crescimento demográfico deverá passar de 1,1% ao ano para 0,7% ao ano. Há uma tendência de queda do número de pessoas por família, resultado da redução da taxa de fecundidade e da formação de famílias unipessoais ou casais sem filhos.
Consequência: a taxa de formação das famílias (2,21% a.a.) tem sido mais que o dobro da taxa populacional (1,03% a.a.). Se há novas famílias, há demanda para habitação. Redução do número de nascimentos não implica redução da necessidade de domicílios.
Ocorre que esse novo potencial cliente do mercado imobiliário não é o mesmo de antes: tem hábitos e filosofia de vida diferentes, o que impacta diretamente na maneira como escolherá seu imóvel ideal.
O estudo da FGV não abrangeu o perfil da nova demanda, mas nosso olhar empírico e nossa sensibilidade nos permitem fazer algumas constatações.
Focando especificamente no público mais jovem, observamos uma geração moldada pela tecnologia. Compras, notícias, e-mail, filmes, séries, programas de TV, álbum de fotos, blogs, podcast, livros e, até mesmo, relacionamentos. Tudo isso, hoje, pode estar congregado em um deslizar de dedos sobre uma tela negra que cabe na palma da mão.
A autonomia que a tecnologia lhes confere no ambiente virtual se estende, muitas vezes, às suas expectativas no mundo real. Se a tecnologia é imediatista, por tabela, seu usuário tende a ser imediatista. Se a tecnologia muda em ritmo quase que impossível de ser acompanhado, quem a utiliza pode ter seus hábitos influenciados pela mesma impermanência. Não à toa, são jovens conhecidos como geração Z - de zapear.
O mercado de imóveis não pode ficar alheio a essa realidade. Esse jovem não quer ter um imóvel, mas sim usá-lo. O mesmo ocorre com relação ao carro: os jovens preferem usar serviços como 99 Táxis, Cabify, Uber, ou, até mesmo, de compartilhamento de automóvel, em vez de comprar um veículo.
Incorporadoras, construtoras, imobiliárias e administradoras de condomínios precisam captar esse novo espírito do tempo e transformá-lo em produtos e serviços que dialoguem com esses jovens. Trata-se de uma inflexão cultural, e não adianta resistir a ela.
O produto ideal para esse público, talvez, seja um apartamento pequeno, de um dormitório, localizado perto de regiões onde mais se concentram empregos e eixos de transporte. Já que sua cabeça é aberta à ideia de compartilhar, por que não pensar em áreas comuns do condomínio com novas funcionalidades? Uma cozinha coletiva e salas de jantar compartilhadas, onde os moradores possam conviver e, consequentemente, demandando menos espaços nas unidades. Lavanderia com lava-e-seca, onde também se passa roupa. Um local com várias ferramentas, como furadeira elétrica, de onde o morador possa pegar emprestados equipamentos cujo pouco uso não justifique sua compra.
Contudo, se, por um lado, a fugacidade é o combustível da vida desse jovem, por outro, cabe-lhe também refletir sobre o dia de amanhã. Aquilo que se deseja hoje (flexibilidade, praticidade, apenas uso de algo sem sua posse, transitoriedade etc.) pode não ser a necessidade do futuro (estabilidade, um lar para chamar de seu, propriedade etc.).
O mercado imobiliário é responsável por prover soluções de habitação em ambos os contextos. Temos de oferecer imóveis a esse jovem de hoje, mas, simultaneamente, pensar sua vida na fase adulta. Independentemente da etapa da vida em que esteja, esse jovem precisará do mercado. Serão soluções distintas, abordagens diferentes, mas, inescapavelmente, virão dos incorporadores, dos corretores, dos construtores, da administração condominial.
*Luíz Fernando Gambi é coordenador geral da Convenção Secovi e diretor do Sindicato da Habitação do Estado de São Paulo.

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