Publicado em: 01/11/2017 14h32 - Atualizado em 03/11/2017 15h42

A relevância de uma política oficial de incentivo arqueológico

Carlos Gustavo Nóbrega de Jesus é Superintendente da Fundação Pró-Memória e Doutor em História Cultural e Pesquisador da Unicamp/IFCH

No artigo passado salientei como a arqueologia ajudou a revalorizar a herança indígena do povo peruano, o orgulho de ter entre seus antepassados o povo Inca e como tal processo auxiliou no desenvolvimento do turismo e da captação de recursos externos para desenvolvimento econômico do país. Salientei, também, que as pesquisas arqueológicas que tiveram um grande desenvolvimento a partir dos anos 1950 serviram para desmistificar a herança indígena da região andina como originária unicamente da cultura incaica. Situação que como já mencionei está intimamente ligada à visão do colonizador europeu que descreveu e generalizou o povo andino a partir de quem encontrou na sua chegada e, o que é pior, a partir de sua analogia com a cultura do velho mundo. Dessa forma, salientava, de forma sucinta, a ponta do iceberg de uma cultura milenar que foi classificada a partir de um juízo de valor europeu ocidental. Infelizmente é, ainda, essa visão que se vende nas agências de viagens no mundo inteiro e que faz Machu Pichu o terceiro destino mais procurado do globo. Situação que faz boa parte dos turistas se espantarem ao se depararem como sítios arqueológicos a cada esquina de Cusco ou no badalado bairro de Miraflores, em Lima, que não são originários da cultura incaica. Ou mesmo visitar locais históricos pré-Incas como Moray tão belo quanto Machu Pichu. Isso se dá pelo fato de que o turismo internacional se faz, ainda, de forma totalmente mercadológica, a partir do olhar europeu ocidental, que relaciona diretamente a cultura andina unicamente com a cultura Inca. No entanto, como se disse, graças ao forte investimento de uma política estatal, com financiamento externo, na prática arqueológica, não é esta imagem que o turista encontra ao chegar nesses lugares. Por exemplo no museu Larco de Lima, você pode vislumbrar, por meio de 45 mil peças, 5000 anos de desenvolvimento andino, antes dos Incas, por meio de documentação tridimensional arqueológica, numa casa do século XVIII, feita em cima de uma pirâmide do século VII, pelos colonizadores. A exposição permanente é dividida em quatro áreas - Costa Norte, Costa Central, Costa Sur e Andes, de acordo com as civilizações desenvolvidas em cada região. Costa Norte desenvolveram-se os Cupisnique, Vicús, Moche e Chimú; na Costa Central os Lima e Chancay; na Costa Sur os Paracas, Nazca e Chincha e nos Andes os Chavín, Tiahuanaco, Wari e Inca. O mesmo pode-se dizer do Museu Nacional de Arqueologia, Antropologia e História em Lima que contém 300 mil peças ou o enorme sítio arqueológico das ruínas pré-incaicas de Pachacámac à 40 km da capital Peruana, assessorado por um museu que também deixa evidente que, bem antes dos Incas, houve o desenvolvimento na cidade, de 200 a c de três grupos: os Wari, os Lima e os Yshma. A complexidade da organização da cidade dividida em quatro setores (administrativo, cerimonial, doméstico e abrigo de peregrinos) demonstra que tal sistematização urbana não foi invenção incaica. Desta forma termino esta coluna questionando: Será que no Brasil a falta de um investimento e de uma política de Estado calcada na investigação arqueológica é que nos impossibilitou a ter uma visão em perspectiva de nossos antecedentes indígenas, inclusive deixando de enxergar seu desenvolvimento próprio e tecnológico, não pior ou melhor, mas apenas diferente a dos povos andinos?

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