Publicado em: 15/12/2017 12h29 - Atualizado em 15/12/2017 16h15

Arqueologia no Brasil - I

Carlos Gustavo Nóbrega de Jesus é Superintendente da Fundação Pró-Memória e Doutor em História Cultural e Pesquisador da Unicamp/IFCH

Terminei a coluna passada escrevendo sobre o avanço da Arqueologia após a Segunda Guerra Mundial, quando a disciplina passou a dialogar com os novos tempos de avanços nas áreas sociais, políticas e culturais, como por exemplo, os movimentos sociais em prol dos direitos civis, contra a exploração colonialista e a favor da diversidade étnica e de gênero repercutiram com força na Arqueologia, inclusive no Brasil, que mesmo com todas as dificuldades contribuiu enormemente para esse avanço da disciplina. Quem trouxe a Arqueologia para o Brasil foi Dom Pedro I com os primeiros artefatos arqueológicos, como múmias egípcias e outros materiais. Mas quem deu o verdadeiro impulso para a ciência foi seu filho.
Depois de 1822, Dom Pedro II tinha a árdua tarefa de criar um Estado Nacional, o que se passava pela necessidade de se forjar uma identidade nacional, ou seja, um passado e uma memória comum para se concretizar a ideia de Brasil. Dentro destas perspectivas, a criação de um órgão seria de importância vital: o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Esse último financiaria os primeiros trabalhos de intelectuais que iriam aventar a ideia de Brasil e da identidade nacional, ou melhor, iriam criar um modelo de representação da identidade brasileira. O vencedor do primeiro concurso foi Von Martius em 1846, talvez, um dos primeiros a escrever o modelo da identidade brasileira baseada na mistura harmônica de três raças (índios nativos, brancos europeus e negros africanos), além de salientar importância da extensão territorial na composição do país.
Para auxiliar a descobrir essas raízes do país, a Arqueologia teria um papel relevante. Nesse sentido, o IHGB teria o apoio da instituição científica mais antiga do país, que completará 200 anos em 2018, o Museu Nacional. Criado por D. João VI em 1818, o então Museu Real, foi idealizado para atender aos interesses de promoção do progresso da ainda sede do Império Português. Mas com a Independência, o Museu Real se tornou o Museu Nacional, deixou de ser um museu essencialmente de História Natural (inicialmente abrigou coleções de obras de arte, mas que dividia a maioria dos espaços com os materiais botânicos,de animais empalhados e de minerais) para se voltar para as áreas de Antropologia, Paleontologia e Arqueologia, justamente pelo entendimento do Imperador de que tais ciências ajudariam a solidificar a ideia de Brasil.
Além disso, não devemos esquecer o interesse pessoal de D. Pedro II pela Arqueologia. Assim que se casou com uma princesa napolitana, coletou material arqueológico de Pompeia, Etrúria e muitos outros lugares, além de outros itens, obtidos por ele em suas viagens. Além disso, o Imperador também tinha o intuito de colocar o novo Estado em consonância com a cultura "avançada" do Velho Mundo.
Segundo o professor Pedro Paulo Funari (2013, p.23), "nesse planejamento, a Arqueologia desempenhava um importante papel, projetada para estabelecer raízes entre ambos, Velho Mundo (arqueologia clássica e egípcia) e Novo Mundo (arqueologia pré histórica). Por algumas décadas, a Arqueologia foi o centro da ideologia imperial do Brasil e isso explica seu desenvolvimento precoce". No entanto, infelizmente, na República tal desenvolvimento vai começar a mudar. Mas essa é uma questão para uma próxima coluna.

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