Publicado em: 08/03/2018 10h49 - Atualizado em 08/03/2018 10h56

Tem surdo e viola, pandeiro e cartola

Com origens no futebol e na quadra da escola, o samba de raiz conquistou espaço e se mantém como tradição

Adriana Brumer Lourencini
Segundo a lenda contada pelo povo brasileiro, o samba foi criado para homenagear Ary Barroso (1903-1964) sambista que compôs Aquarela do Brasil. Porém, em Indaiatuba, o ritmo se popularizou com as primeiras escolas de samba, como os Acadêmicos do Salgueiro, por exemplo. Hoje, a cidade conta com grupos tradicionais de músicos que, além de atraírem muitos fãs, procuram manter viva a tradição do ritmo nacional.
Um dos grupos mais tradicionais da cidade é o Nó na Madeira, que já tem mais de 30 anos de tradição, e é liderado por Sérgio Francisco Alves (Serjão). “Sempre cantei samba, mas desde 1986 estou à frente do Nó Na Madeira, e hoje nos apresentamos como Serjão e Grupo Nó Na Madeira”, comenta o sambista. O músico também segue carreira solo paralela e, há dois anos gravou o CD Tua Sentença, com 15 músicas. Atualmente, o grupo tem seis integrantes.
“Aqui tem um público grande que curte o samba de raiz, e Indaiatuba é bastante conhecida como a cidade do samba, já que há muito tempo nós viemos trazendo essa bandeira”, declara Serjão.
Depois do grupo Nó Na Madeira, foram surgindo novos representantes do samba de raiz na cidade, entre eles, Na Palma da Mão, Amigos e Chegados, Amigos do Samba Raiz. Romeu Júlio dos Santos Rocha (o Lalo) já está na trajetória do samba há 30 anos.
A galera de Lalo é composta de nove integrantes, que levam a tradição do samba de roda a diversos bares na cidade. “Essa tradição surgiu há uns 35 anos, e a maioria veio do samba enredo do Acadêmicos do Sereno”, conta o músico. “Mas, no início o samba tinha outro formato, utilizando-se basicamente instrumentos de bateria – surdo, tamborim, reco-reco, frigideira, cuíca – porque, depois dos ensaios da escola, nós formávamos as rodas”, lembra.
Entre as músicas, ele cita composições de Noite Ilustrada, Lupicínio, Jair Rodrigues e vários outros ícones do samba. A formação do grupo é bem variada, sendo que alguns integrantes vieram de outras cidades. “Ficamos mais tempo juntos do que com nossas esposas”, brinca Lalo.
“Basicamente, a história do samba de Indaiatuba vem do futebol, depois para a quadra da escola de samba e volta para o samba de raiz, que é aquele de mesa, que não está concentrado dentro de quadra, mas é um lazer que o pessoal gosta”, resume. “O verdadeiro samba é aquele que nasceu dos poetas, no Rio de Janeiro, e se espalhou pelo Brasil”, completa Lalo.
NOVA GERAÇÃO
Edgar Paulino dos Santos veio de Barueri há 22 anos e fundou aqui o grupo Rapadapanell@, há 14 anos. “Sou professor da rede estadual e, nos finais de semana, mantemos acesa nossa cultura do samba. Nossa essência é o samba tradicional (raiz), mas também mesclamos samba-rock, MPB e pop-rock”, destaca.
“Também compomos e, em 2016, tivemos a oportunidade de gravar um CD com 13 músicas inéditas. Ali, tem uma canção chamada Espelho Materno, uma homenagem às mães. Já o Santo Ébano fala de São Benedito”, revela Edgar. Os outros integrantes do Rapadapanell@ são: Seu Pedro, Tadeu Bellini, Mário Arruda, Antony, Bruninho e Marquinhos.
“Tenho hoje o programa Acervo do Samba na TV GW, e buscamos sempre manter a tradição do samba na cidade”, fala Tadeu Bellini. “Vejo muitos jovens entrando nas rodas e cantando. Mas não podemos esquecer do pessoal da velha guarda, que contribuiu muito para o samba da cidade.”
O projeto sociocultural Comunidade Quarta da Samba, nasceu na Vila Avaí, em 2013. Gislaine Nascimento atua na produção e organização dos shows, e conta que o repertório é composto de canções de Zeca Pagodinho, Almir Guineto, Adoniran Barbosa, Dona Ivone Lara. “São muitas músicas que surgem nas rodas e levam a galera à loucura”, afirma.
“Hoje a formação do grupo é basicamente a original: Plínio Silva (violão e vocal); Júlio Alves, filho do Serjão, no violão; Nico (cavaquinho e vocal); Beto (pandeiro); Marquinhos (pandeiro, percussão e voz); Furiba (tantã e vocal); e Isaías (vocal), com Serjão como padrinho”, cita Gislaine.
“O samba é patrimônio cultural, faz parte de períodos, gerações e famílias. Herdamos isso de nossos ancestrais e levamos adiante para que não apenas os jovens, mas todos que carregam no sangue esta raiz possa mantê-la viva”, enfatiza.
CARNAVAL
O abre-alas dos desfiles de Carnaval em Indaiatuba foi da escola Acadêmicos do Sereno, que desfilou pela primeira vez em 1977. Naquela época não havia a obrigatoriedade de se compor samba enredo. Já em 1978, o tema da escola foi O Casamento de D. Pedro I, composto por Tião Paraquedas; no ano seguinte, o enredo falava do Sítio do Picapau Amarelo, de Reinaldo. Em 1980, o Sereno entrou com os 150 anos de Indaiatuba, composto por D-21.
Os compositores se revezavam entre Reinaldo, Bazani, Serjão, Itamar Pereira, Paulão Frenético, Toninho, Vitinho, Kuka, Carlinhos Santista, Alemão, Magriça, Daniel da Vai-Vai, Elias, Nassi, Athayde, Lins, Sandra, Du do Cavaco, Baixinho do Banjo, Jorge Santana, Emerson, Royce do Cavaco e Sidão. O Sereno venceu os carnavais de 1982, 1984, 1985, 1988, 1990, 1994, 1995, 1996, 1997, 1998, 1999, 2000, 2001, 2002, 2003, 2006 e 2007. (*)
Outras escolas surgiram na cidade, como a Imperador de Santa Cruz, campeã do carnaval de 2016; Águias Negras; Unidos de Indaiá e Unidos do Oliveira Camargo. Contudo, devido à redução na verba ao longo dos anos, os grupos foram se desintegrando, e hoje apenas o Sereno e a Imperador ficaram.
SEM ENREDO
Em 2018, Indaiatuba não teve desfile das escolas de samba. Segundo justificativa do prefeito Nilson Gaspar, o município está em fase de corte de gastos e o dinheiro destinado ao carnaval foi direcionado para outras prioridades. “A Prefeitura é quem tinha de bancar o Carnaval, e com a situação atual já não é mais viável”, comentou em entrevista.
Desde 2010, a crise já vem afetando o Carnaval da cidade. Contudo, um novo formato foi definido por Gaspar, em 2017, junto aos líderes das escolas de samba do município, que contou com três dias de folia, mas sem desfiles - as escolas Imperador e Sereno, juntamente com o Bloco da Pastoral da Juventude se apresentaram no palco montado ao lado do Barco do Parque Ecológico, dividindo espaço com o axé.
Teve ainda o tradicional Carnaval das Marchinhas, na Praça Prudente de Moraes, além do show da Bateria Classe A, do mestre João Paulo. Com uma programação enxuta da folia, não houve subvenção ou premiação para as escolas e blocos.
Para Lalo, o cancelamento dos desfiles é ruim para a cultura do Carnaval. “Se você olhar pelo lado social, o governo municipal alega outras necessidades para investimento do dinheiro, mas, sabemos que o dinheiro vem da Secretaria Estadual da Cultura, e quando chega na cidade eles utilizam este argumento”, lamenta.
“Realmente, não é legal; sabemos do momento difícil, mas ficar muito tempo sem atividade perde a motivação e pode prejudicar muito as escolas. É uma festa popular, e acredito que a maioria gosta de assistir e participar”, emenda Serjão.
(*) Fontes:
* Título: trecho da letra da música Sou da Madrugada (intérprete: Jair Rodrigues / composição: Gilson de Souza-Wando)
* Acadêmicos do Sereno: Regina Bérgamo, para o blog História de Indaiatuba
Rodas de samba em Indaiatuba Rodas de samba em Indaiatuba (Crédito: Divulgação )
Rodas de samba em Indaiatuba Rodas de samba em Indaiatuba (Crédito: Divulgação )
Rodas de samba em Indaiatuba Rodas de samba em Indaiatuba (Crédito: Divulgação )
Rodas de samba em Indaiatuba Rodas de samba em Indaiatuba (Crédito: Divulgação )

Da capoeira ao pagode: a cadência da evolução


Gênero musical derivado de dança de raízes africanas, o samba foi popularizado no Brasil, sendo uma das principais manifestações culturais do país. O samba de roda (similar à roda de capoeira) nasceu no recôncavo baiano, e foi levado por escravos ao Rio de Janeiro, no século 19. Ali tornou-se o gênero musical que se espalhou pelo Brasil, e entrou em contato com outros gêneros tocados na cidade, adquirindo um caráter singular e transformando-se na identidade nacional.

A canção Pelo Telefone (1917) foi o marco do início do samba urbano, já que foi a primeira música do gênero gravada no país, de acordo com registros na Biblioteca Nacional. A composição foi reivindicada por Ernesto Santo (Donga), em parceria com Mauro de Almeida; mas, segundo diz a lenda, a música foi criada por vários músicos que frequentavam as festas na casa de Tia Ciata – contudo, o registro na Biblioteca Nacional foi feito por Donga e Almeida.

No final dos anos 1920 surgiram novos compositores e o ritmo foi ganhando espaço, conquistando formato genuíno (também chamado de raiz) e consolidando-se como expressão musical urbana, executada nas rádios.

Apesar de hoje ser considerada uma paixão nacional, o samba (e seus adeptos) passou por maus bocados; isso porque era um ritmo associado à cultura negra, malvista no início do século passado. Só depois dos anos 1940, durante o governo Vargas, o gênero passou a ser considerado símbolo nacional.

MELODIA E BATIDA
A harmonia do samba é desenvolvida pelos instrumentos de corda, como o cavaquinho e o violão. O ritmo, por sua vez, nasce do surdo ou do pandeiro. Já o reco-reco surgiu da batida do garfo no prato, executada pelos escravos negros, juntamente com batuques na palma das mãos. Mais tarde, instrumentos como flauta, cuíca, saxofone e até piano/teclado foram sendo incorporados, conferindo novos estilos, sotaques e jeitos diferentes de se tocar.
De qualquer modo, vale lembrar ainda de instrumentos igualmente bem-vindos numa boa batucada. Um deles é o tantã - tocado com a palma das mãos, é mais fino que o surdo e serve para marcar o ritmo. O tamborim, por sua vez, é tocado com vareta de bambu, e traz som agudo ao batuque. Por fim, o cavaquinho cumpre o mesmo papel do tamborim, porém, faz isso na melodia, e não na batida.

A flauta foi trazida pelo chamado samba de breque, um dos primeiros estilos nascidos nos botecos do Rio, nos anos 1920. A denominação vem das paradinhas no meio da música, onde o intérprete dizia uma frase ou contava uma história (geralmente engraçada). O samba de breque teve Moreira Silva como precursor. Segundo os músicos, é um ritmo picado, ou sincopado, que tem como marca a parada repentina.

Lá pelos anos 1930, um novo ritmo, então, se popularizava nos morros cariocas: o partido-alto, que tinha o surdo como instrumento que definia a pulsação, ou seja, o coração do samba. O diferencial do partido-alto eram os versos improvisados, criados entre um refrão e outro, que podiam ser comparados ao repente. O principal representante do estilo foi Martinho da Vila, a partir dos anos 1970, com músicas que até hoje contêm jogo de palavras encaixadas na letra, e que tratam, de forma bem-humorada, de temas cotidianos.

Ainda na década de 1930 nascia o samba-enredo, com uma batida mais acelerada do que os outros ritmos. Mas, até os anos 1980, todas as composições abordavam apenas a História oficial do Brasil.

Já o samba-canção ficou famoso com compositores como Cartola e Noel Rosa, que cantavam a popular ‘dor de cotovelo’. Com batida lenta e cadenciada, o também chamado ‘samba de fossa’ lembrava muito o bolero, e contava histórias de desilusão amorosa, amor não correspondido e traições. Neste ritmo, o pandeiro chegou para dar o tom.

O pagode, favorito de muitos, é mais jovem – surgiu nos anos 1980, no Rio, pelas vozes de Jorge Aragão e Zeca Pagodinho. Naquela época, sofria influência do partido-alto, mas, na década de 1990 veio para São Paulo e adquiriu uma pegada mais lenta, romântica.

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