Publicado em: 08/03/2018 10h58 - Atualizado em 08/03/2018 11h06

Drag Queens e transexuais

As conquistas e os desafios por trás das roupas femininas e coloridas, maquiagens e salto alto

Anieli Barboni
Muitas drag queens ganharam seu espaço no país, como Alexia Twister, Lorelay Fox e Pabllo Vit-tar. Além delas, muitas outras buscam uma oportunidade nos palcos, na televisão, no mercado de trabalho e aceitação na sociedade. A Revista da Tribuna conversou com três pessoas que também lutam pela diversidade. Um deles é Vinicius Silva, a Aqua.
Com 25 anos de idade, Vinicius divide seu tempo com três trabalhos: vendedor, professor de stiletto (dança com salto) e drag queen. Ele conta que se redescobriu aos 16 anos de idade e sua drag, a Aqua, apareceu em 2016. “Se descobrir homossexual é uma coisa, se descobrir drag é bem diferente porque encaramos outras situações e barreiras. Além do preconceito na sociedade e no lar, a drag tem que lidar com o preconceito no meio LGBTQ+. Infelizmente, muito do preconceito que enfrentamos vem da sociedade heterossexual, porém, existe o preconceito dentro da comunidade LGBTQ+ com as drag queens”, comenta. 
Vinicius conta que assumir a Aqua foi complicado, já que o estilo da sua drag é o beard queen. “Quando descobri minha drag foi uma briga muito grande porque a própria comunidade LGBT. Muitos dizem que não sou drag queen, que sou andrógino. Essas pessoas dizem isso porque entendem que drag tem que ser feminina, usar peruca, não pode ter pelo e nem barba”, diz. “Quando me assumi homossexual eu também tinha um pensamento totalmente diferente. Para mim, gay tinha que vestir roupa de homem e não precisava ser travesti e drag, mas eu nem sabia a diferença”, afirma.
Vinicius explica que no mundo drag existem muitos estilos diferentes. “Quem é drag se enxerga como um quadro branco e pinta como quiser. Eu não sou andrógino, sou gay cis. Androginia remete a uma pessoa com características que não são dela, como um homem que está vestido de forma mais feminina. Nos anos 70 e 80 o estilo teve representatividade com a banda Kiss”, aponta. “A minha drag é andrógina, ela tem roupas femininas, mas não quero passar a visão de que sou menina. Uso barba e não coloco peruca. Dentro desse universo chamamos a minha drag de beard queen. A influência desse movimento vem dos anos 60 e 70, quando tinha muita arte circense e existiam as mulheres barbadas”, explica.
Vinicius cita que também existe o estilo drag fishy, que é o caso da Pabllo Vittar, que é um menino gay e a sua drag é feminina, passa a ilusão de que é uma mulher. “Outro estilo que também faço é o Club Kid. Esse movimento também é antigo, dos anos 80. Ele é caracterizado por inspirações, por exemplo, me monto inspirado no jardim, então, vou colar folhas no rosto e no lugar do cabelo coloca uma planta artificial como se fosse trança. Hoje, no Brasil, Nina Codorna e Alma Negrot também adotaram o estilo Club Kid”.
Para se encontrar no estilo beard queen, Vinicius conta que primeiro se montou como fishy. “Existe muita pressão, as pessoas falam que é necessário tirar a barba, que ser drag é isso e não aquilo. Nas primeiras vezes que me montei eu me depilei, mas olhava e não me sentia feliz. Quando me montei com a barba, me identifiquei. Isso foi no final de 2015 e no ano seguinte criei a Aqua”, lembra.
O nome de sua drag remete a água, que é o elemento do seu signo (câncer). Aqua significa água em latim. A sua drag tem influência de quatro artistas: a drag brasileira Ikaro Kadoshi, e as americanas Sasha Velour, Alaska Thunderfuck e Alyssa Edwards.
“Tive a oportunidade de conversar com Ikaro, ela é uma drag andrógena, mas sem barba, e me deu muita atenção e orientação. A Sasha é campeã da 9ª temporada do programa RuPaul’s Drag Race, e tive oportunidade de conhecê-la pessoalmente em um show em São Paulo. A Alaska Thunderfuck é a campeã da 5ª temporada do mesmo programa; e a Alyssa veio para a Festa Priscilla ,em São Paulo, no ano passado, onde a conheci e tive o prazer de ser convidada para dançar e fazer lip sync no palco com ela”, conta.
Vinicius se apresenta em uma casa noturna, em Campinas. Em Indaiatuba, se apresentou duas vezes até hoje. Uma foi na parada gay de 2017 e a outra foi na inauguração de uma loja no Shopping Jaraguá, no mesmo ano. “Me ligaram da loja e perguntaram se eu poderia me apresentar na inauguração. Pensei que estavam falando do stiletto e perguntei se queria que fosse o grupo completo. A pessoa que estava no telefone perguntou se tinham mais pessoas que se montavam e, então, entendi que ela estava falando da Aqua. Fiquei em choque porque seria a primeira vez que uma drag circularia às três da tarde no shopping em Indaiatuba. Fiquei com medo, mas deu tudo certo e todos me acolheram muito bem”, recorda.
Agora, o objetivo de Vinicius é cursar educação física para futuramente ter seu estúdio de dança. “Hoje temos drag queens que recebem muito bem por fazer o seu trabalho, como Ikaro Kadoshi, Penelopy Jean, Márcia Pantera, Rita Von Hunty, Silvetty Montilla, Alexia Twister, Lorelay Fox e Pabllo Vittar, mas é difícil. Muitas têm que ter dois empregos. No começo, querem pagar R$ 20 por noite ou trocar por consumação. Tem uma música da Gloria Groove que fala que consumação não paga peruca, e é exatamente isso”, ressalta. “Estamos conseguindo coisas que não imaginávamos anos atrás, como uma drag em comercial de TV e em música de novela, mas ainda precisamos de muito mais para melhorar, já que drag no Brasil não é encarado como profissão e somos o país que mais mata pessoas do meio LGBTQ+ no mundo, só em 2017 foram 457 mortos”.
Vinicius é a Aqua Vinicius é a Aqua (Crédito: Edina Prado)
Vinicius é a Aqua Vinicius é a Aqua (Crédito: Edina Prado)
Vinicius é a Aqua Vinicius é a Aqua (Crédito: Edina Prado)
Vinicius é a Aqua Vinicius é a Aqua (Crédito: Edina Prado)
Vinicius é a Aqua Vinicius é a Aqua (Crédito: Edina Prado)

O sonho da fama

A transexual Khess Joy também busca uma oportunidade como cantora drag queen. Além de cantar, ela produz e compõe suas músicas e é cabelereira. “Todas nós começamos como gay e vamos mudando. Desde os nove anos de idade eu era feminina e a transexualidade veio aos 19 anos, já a minha drag veio há seis anos. Por muito tempo eu fui conhecida como Marcelo Khess e me apresentava nas noites. Vestia-me como menino e usava cabelo comprido. Chegou um dia que percebi não dar mais para ser mulher o dia todo e a noite colocar roupa de menino para cantar. Então, fiz uma numerologia para adotar o nome Khess e acrescentei Joy porque sempre estou no meio da bagunça”, conta.
Khess canta desce criança e suas apresentações seguem o estilo dance music e pop romântico. Agora, a cantora está lançando um reggaeton em português e seu sonho é atingir a fama e reconhecimento nacional com seu trabalho de cantora e drag. “Hoje faço mais trabalhos na televisão. Participei do quadro Malucos Molhados do SBT e fui vencedora do programa do Nahim. Este ano estou com o projeto dessa música, que chama Grande Lua. Ela foi inspirada em relacionamento meu, que ainda está uma conturbado, fala de amor, é bem dançante. Também tive inspiração na música Cheguei Pra Te Amar, da Ivete Sangalo com o MC Livinho”, aponta. “Meu projeto é gravar um CD, estourar com uma música e ter meu próprio programa de televisão que fale sobre o mundo LGBT. Sei que ficar famosa é muito difícil, então estou tentando o The Voice Brasil e divulgando meu trabalho no Youtube”, conta.
Khess é cabelereira e a noite trabalha nos palcos. Para ela, ser drag hoje é sinônimo de muita alegria. “Temos que agradecer muito a Pabllo Vittar por tudo que vem acontecendo e por ter abrido um leque imenso no mundo da música, mas temos que nos lembrar das outras drags que foram importantes nesse processo, como a finada Rogéria, Nany People e Léo Áquilla”
Khess sonha com a fama Khess sonha com a fama (Crédito: Divulgação )
Khess sonha com a fama Khess sonha com a fama (Crédito: Divulgação )

O lado negro do colorido

Divulgação Eliana falou dos seus desafios
Eliana Thompson, 49 anos, antes Elias, não quer ser reconhecida no meio artístico, mas durante muito tempo sua luta foi por uma oportunidade de emprego e o fim do preconceito no trabalho. Eliana, que hoje é costureira, passou por momentos difíceis e compartilhou alguns deles com a Revista da Tribuna.
A transexual se recorda que no registro do Clube Tejusa a primeira pessoa a vestir de roupa feminina, mesmo não tendo silicone, foi ela. Elias adotou Eliana e o sobrenome foi uma sugestão do organizador de um concurso de miss gay e ela aceitou. Sua feminidade apareceu quando criança e, na época, os recursos eram poucos e o assunto era um tabu. Na adolescência, ela chegou a fazer tratamento no Instituto de Reabilitação e Prevenção em Saúde Indaiá (Telhadão) porque seus parentes acreditavam que sua feminidade era doença. O tratamento não resolveu o “problema”. “Minha família era evangélica e muito reservada, e minha mãe achava que isso era coisa do demônio. Só fui me assumir e usar roupas femininas durante o dia aos 21 anos de idade, após a morte da minha mãe. Antes, para sair à noite, eu me trocava e me maquiava em uma construção”, conta.
Para mudar seu corpo, ela fez procedimentos perigosos e escondidos, sem orientação de um médico. Antes dos 21, aos 14 anos Eliana começou a tomar hormônios femininos por conta própria e deixar seu cabelo crescer. “Eu fui transformista, só usando roupa feminina sem modificar meu corpo, por um tempo. Teve uma época que eu fazia programa e, quando chegava na rua, as travestis não me aceitavam porque eu não tinha silicone, não tinha peito. Foi quando tomei coragem de me ‘bombar’ e coloquei silicone industrial no glúteo. Na mama não precisei porque o hormônio feminino que tomei fez a mama crescer. Esse hormônio era indicado por nossas amigas, tinha que tomar e esperar para ver qual parte do seu corpo ele iria modificar. Em algumas, ele modela a parte do quadril, fica mais redondo. Como isso não aconteceu comigo, coloquei silicone com uma bombadeira clandestina.
 
Mesmo sabendo dos riscos que corria, Eliana estava decidida a mudar.  “Todas nós sabemos do risco. Eu sou forte, coloquei só dois litros e tive convulsão. O processo é muito dolorido, é só uma anestesia no local. A agulha parece uma de tamanho16 de costura. Depois que coloquei, dormi três meses amarrada de barriga para baixo. Tem que amarrar para o silicone não descer para os pés, até ele condensar e ocupar um espaço no seu organismo”, conta.
Eliana teve sorte e saiu ilesa do procedimento, mas para uma de suas amigas o fim foi diferente. “Na primeira vez que ela colocou o silicone foi parar perto do pulmão. Ela começou a passar mal e procurou um médico, que lhe avisou para não fazer novamente porque o risco de ter embolia pulmonar e morrer era grande. Quando ela se recuperou achou que tinha ficado com pouco peito e foi fazer o procedimento com uma bombadeira novamente, e morreu. Quando isso acontece, a bombadeira precisa se livrar do corpo para não ser responsabilizada, então, ela não avisa a família, que na maioria das vezes não sabe do procedimento, chama um carro e ‘desova’ o corpo”, conta. “Não me arrependo do que eu fiz, mas se fosse hoje eu não faria desse jeito. Naquela época eu não podia esperar porque minha vontade de mudar era grande”.
A costureira conta que acreditava ser travesti, mas quando conversou com um psicólogo ele a explicou que ela era transexual porque um travesti não tem vergonha do seu órgão sexual, já a transexual não se sente bem com o órgão dela. Eliana tem vontade de fazer cirurgia de ressignificação, mas o procedimento é demorado no Brasil. “Comecei a fazer o tratamento no Hospital São Paulo, mas como estava trabalhando em uma empresa que encarava isso como estética e eu não poderia ficar faltando porque na experiência, perdi o processo. Depois tentei novamente, mas aqui é muito complicado. Tenho que ficar seis anos fazendo o tratamento e corro o risco de um dos médicos entender que não posso fazer a cirurgia. Caso eu passe, ainda tenho que aguardar a fila de espera que é muito grande no país. Isso me incomoda, mas já tenho 49 anos e até quando teria que esperar por essa cirurgia?”.
Ao longo desses anos, Eliana buscou espaço no mercado de trabalho, mas conseguiu oportunidades apenas como auxiliar de cozinha e costureira. Ela contou à Revista da Tribuna que sentiu na pele o preconceito de uma sociedade machista e homofóbica. “Eu trabalhava como auxiliar de cozinha em um restaurante que prestava serviços as empresas multinacionais. Na época, a Aids estourou no país e era o assunto do momento. Quando tinha auditoria dessas grandes empresas no restaurante, eu e mais três homossexuais que trabalhavam lá tínhamos que ficar escondidos no banheiro até irem embora. Tudo isso era para eles não ver que lá trabalhavam homossexuais, por causa da Aids”, recorda. “Depois trabalhei em uma fábrica de costura e lá eu tinha que ter o meu banheiro porque nem os homens e nem as mulheres aceitavam que eu usasse o mesmo banheiro que eles. Eu mandava currículo e quando a pessoa me via inventava desculpas”, recorda.
Eliana conta que também enfrentou preconceito na escola e se emocionou ao falar da dificuldade em encontrar trabalho. “Eu apanhava, roubavam meu material e meu tênis. Tenho amigas que não conseguiram enfrentar isso e não sabem ler e escrever, então, tem que ir trabalhar na rua. Uma das minhas amigas conseguiu emprego só agora, depois dos 40. A sociedade tinha que dar mais oportunidades, muitas como eu só queremos uma chance, por isso deveria de ter um sistema de cota. O xingo e o palavrão nós escutamos, retrucamos, mas os atos e fatos marcam, doem”.

Veja Também:

Comentar


Mais lidas
Filmes em cartaz
  • OS FAROFEIROS
  • O PASSAGEIRO
  • CINECLUBE - O INSULTO
  • PANTERA NEGRA
  • CINQUENTA TONS DE LIBERDADE
  • OPERAÇÃO RED SPARROW
  • A MALDIÇÃO DA CASA WINCHESTER
  • A FORMA DA ÁGUA
  • TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME
  • DUDA E OS GNOMOS
  • VIVA: A VIDA É UMA FESTA
  • O TOURO FERDINANDO
  • FALA SÉRIO, MÃE!