Publicado em: 03/05/2018 11h00 - Atualizado em 04/05/2018 15h34

Despedida

Em entrevista, Érika Hayashi revela alegrias e decepções de seus 21 anos à frente da Cultura

Fábio Alexandre
Werner Münchow Em sua última semana de trabalho, Érika e parte da equipe da Secretaria de Cultura: entrosamento permitiu o crescimento de projetos e oficinas
Após 21 anos no comando, Érika Hayashi Kikuti se despediu da Secretaria Municipal de Cultura na última terça, dia 1º, durante a abertura do 26º Maio Musical.
Em entrevista para a Tribuna, conta que sua grande paixão são as oficinas culturais, que revelaram diversos talentos da cidade nas últimas décadas. Confira abaixo os principais tópicos.
Começo
"Nunca foi um sonho ou sequer imaginei isso. Não sabia nem que era o prefeito ou vereadores na época. Artista vive em um mundo à parte, né? Acho até que eu tinha uma aversão a tudo que se referia à política. E depois fui casar com um vereador (Fábio Marmo Conte)", brinca. "O convite veio após uma matéria dizendo que o governo do Reinaldo (Nogueira, prefeito na época) estava começando mal, sem um secretário de Cultura. Li e fui viajar no mesmo dia, era janeiro. Foi então que ele me ligou e eu disse: não sei o que é ser secretária de Cultura. Ele falou: eu acompanho você há muitos anos, sei o quanto você luta e consegue fazer sem dinheiro nenhum, o quanto é disposta a lutar e o que eu quero é isso mesmo".
"Confesso que comecei bem assustada. Suceder o Wladimir Soares foi muito difícil e é até hoje, porque existem pessoas que pararam no tempo e ainda enxergam a Cultura como 30 anos atrás", analisa. "Do mesmo jeito vai ser difícil para quem entrar agora. Não é certo uma pessoa ficar tanto tempo quanto eu fiquei - e já queria ter saído antes. O positivo foi que alguns projetos se enraizaram e solidificaram, já são da população. A Tânia Castanho (nova secretária de Cultura) chega com todo gás, algo que não tenho mais. A população tem que dar tempo a ela, como eu tive também".
Administrativo
"Em primeiro lugar, é bom destacar que hoje não temos uma prefeitura falida, mas uma que se destaca na região porque tem verba e a Cultura se sustenta. É pouco? É, mas sempre vai ser. Você tem que se adaptar", ressalta. "No começo, varríamos a rua para fazer eventos, construíamos palco, montamos uma orquestra do nada. Hoje, o quedificulta é que as regras federais mudaram. Por outro lado, isso é bom. Não se pode fazer isso ou aquilo sem prestar contas. Quem está de fora, acha que o secretário não tem força de vontade, mas a lei não permite".
"Tem artista que fala: assinei uma requisição de R$ 1 mil e recebi R$ 980. A secretária ficou com R$ 20. Calma, tem imposto de renda, ISS (Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza). Essas coisas são difíceis", comenta. "Às vezes, você quer ajudar um grupo - e recebemos muitos pedidos - mas não podemos. Agora, com o Conselho de Cultura, pode-se fazer isso. O trabalho fica mais transparente e correto".
Estado
"Estamos caminhando para o 11º ano de Virada Cultural, parceria que aconteceu logo no primeiro ano do projeto. Lembro que quando entrei na Secretaria, fiquei pouco por lá e logo fui para fora, para aprender", recorda. "Estive em uma estreia, logo no começo do ano, em Limeira, do primeiro polo do Projeto Guri fora da Febem (atual Fundação Casa). Quando vi aquilo, falei: quero isso para Indaiatuba. Daí fui para o Estado e me deram uma lista enorme. Imagina conseguir isso em uma prefeitura falida?".
"Na época, fui procurar ajuda. Sérgio Squilanti e o Jair Sigrist, da Aciai (Associação Comercial, Industrial de Agrícola de Indaiatuba), encamparam uma campanha com os comerciantes locais para que comprassem os instrumentos. Fui para o Estado e falei: consegui. Daí disseram para conseguir um espaço adequado. De fevereiro até julho, corremos até conseguir a aprovação", recorda. "As aulas começaram em agosto e no final do ano, aconteceu o concerto de apresentação do Guri na Igreja Santa Rita. Veio toda a equipe do Estado e a cantora Jane Duboc, que junto com o Toquinho apadrinharam nosso projeto. Li na imprensa depois: como Indaiatuba conseguiu? E a resposta foi: pela persistência da secretária. Fui até o fim. O projeto cresceu e se tornou o melhor do Estado".
"A partir daí, começamos a trazer outros projetos. Indaiatuba se tornou referência para novos projetos. Assim vieram o Circuito Cultural e a Virada Cultural Paulista. Foi uma parceria conquistada durante esta caminhada em conjunto e algumas pessoas me ajudaram muito. Hoje, quando o assunto é Virada, Indaiatuba é referência", destaca. "Não é mérito somente da Secretaria, mas de um conjunto. Algumas cidades desistiram do evento na véspera, porque não tinham como pagar som e luz. Aqui já é licitado por um ano. Estado paga cachê e temos condições de bancar a estrutura".
Projetos
"Minha menina dos olhos são as oficinais culturais, voltadas aos jovens e terceira idade. Este é o trabalho mais importante, de fomento da arte e cultura, e de formação do indivíduo", conta. "Quando pegamos o Maio Musical, não tínhamos o público que temos hoje. Não melhorou apenas porque o artista é bom, mas porque isso foi fomentado nas oficinas. São pessoas que há anos estudam e hoje estão se apresentando".
"Trinta anos atrás, a Cultura funcionava de forma mais elitizada, isso no Brasil todo. Hoje, o Ministério da Cultura vê tudo de forma diferente. Qualquer manifestação artística tem que ser respeitada. Para você transformar pessoas, você precisa primeiro respeitar sua arte", analisa. "As pessoas têm medo do que não é belo aos seus olhos, mas o que não é belo aos seus olhos, preenche os olhos e o interior de outras pessoas. É isso que precisa ser respeitado".
Críticas
"Sofri muito. Quem realmente acompanha a cultura local, sabe que é mentira. Com dança, não gastamos nada o ano todo. Hoje temos o Passo de Arte, que investe na cidade, e os bailarinos ainda estão sempre ao lado dos melhores", destaca. "Tenho a minha academia de dança, uma assessoria de imprensa, que coloca as novidades na mídia. Cada academia da cidade é uma empresa. Na prefeitura, o único projeto era o Setembro em Dança, que morreu por causa do Passo de Arte. As pessoas querem competir e estar entre os melhores. E nunca quis que fosse competitivo".
"Músico é quem mais fala e é o mais privilegiado em Indaiatuba. As pessoas que ouvem o músico criticar, dão risada, porque mostra a sua ignorância em relação ao que realmente acontece na cidade", aponta. "O que mais me chateou foi receber críticas e não poder me defender, de maneira geral. Sempre procurei levar tudo certinho e brigo por isso. Não poder falar a verdade, foi o pior. Nunca rebati uma acusação feita. Além disso, nunca fui valorizada na cidade como artista. Meu sucesso acontece fora daqui. Mas é claro que não posso generalizar".
Equipamentos
"Vejo que falta muita coisa e vai faltar sempre. Quando nós começamos, não tinha nada. Hoje temos o teatro, o Piano, a Praça do CEU (Centro de Artes e Esportes Unificados) e os CRAS (Centro de Referência de Assistência Social), que usamos também. Mas precisamos muito de um teatro exclusivo para a Cultura", enfatiza. "A agenda da Sala Acrísio de Camargo não existe, está toda ocupada. E se tivermos um novo teatro, ele vai ser ocupado pelos artistas e não vai ter data do mesmo jeito".
"O que eu mais queria ter feito e está no plano de governo do prefeito Nilson Gaspar (MDB) é a construção de um conservatório. Temos as oficinas culturais e durante anos, levamos os alunos para o Conservatório de Tatuí, toda quarta-feira, para cursos de especialização", revela. "Foram mais de dez anos levando um ônibus para lá, até que chegou um ponto que cada um foi se aperfeiçoando tanto, que as datas não combinavam mais. Tem gente que mudou para Tatuí".
"Precisamos unir teatro e conservatório, como em Tatuí. Criar uma faculdade de arte, para que as pessoas possam se profissionalizar aqui, pois o potencial é muito grande. Este foi o maior sonho que tive e não pude realizar".

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