Publicado em: 16/05/2018 10h55 - Atualizado em 18/05/2018 15h38

Marc Ferro e o avanço dos usos do cinema pela história no século 20

Carlos Gustavo Nóbrega de Jesus é superintendente da Fundação Pró-Memória e doutor em História Cultural e Pesquisador da Unicamp/IFCH

Nos artigos passados, destaquei que o filme pode tornar-se um documento para a pesquisa histórica, na medida em que articula ao contexto histórico e social que o produziu, um conjunto de elementos intrínsecos à própria expressão cinematográfica. Assim, cheguei à conclusão que ao invés de refletir a realidade, ele pode ser visto com agente transformador desta realidade.
Nesse sentido, também mostrei a partir de alguns exemplos, que desde o final do século 19 já se buscava entender o filme como documento histórico. Mas, foi só no final do século 20, com os novos rumos da disciplina histórica, a partir do diálogo com as outras disciplinas, que foram possibilitados os estudos sistemáticos do uso do cinema como documento históricos, nos rastros de "novosdiversos objetos e novas abordagens", título esse de um simbólico estudo de grandes especialistas que se consubstanciou-se numa famosa coleção na área da historiografia.
O responsável por tratar da relação entre cinema e história na coleção foi o historiador francês Marc Ferro. Estudioso do século 20, Ferro já era notório por pesquisar a história política do chamado "breve século 20", seus livros sobre as Guerras Mundiais, Revolução Russa e o Imperialismo são referência para quem se interessa pela chamada História Contemporânea. Em 1968, ele deu sua primeira contribuição para que o cinema pudesse ser visto como documento histórico, alertando que, para a época contemporânea, estavam à disposição documentos de um novo tipo de abordagem e com uma nova linguagem que traziam uma outra dimensão ao conhecimento do passado.
Um primeiro aspecto é o reconhecimento de que, tratado como documento histórico, o filme requer a formulação de novas técnicas de análise que deem conta de um conjunto de elementos que se interpõem entre a câmera e o evento filmado. "As circunstâncias de produção, exibição e recepção envolveriam toda uma gama de variáveis importantes que deveriam ser consideradas numa análise do filme" (Kornis, 1992, p.242).
Essa consideração fez com que o historiador do cinema se conscientizasse que uma análise historiográfica de um filme não poderia ficar restrita ao seu conteúdo narrativo, mas sim deveria espraiar-se para toda produção cinematográfica e o contexto em que foi idealizada.
(continua)

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