Publicado em: 28/11/2016 11h06 – Atualizado em 02/12/2016 11h16
Comunidade unida na diversidade de crenças
Catolicismo se mistura com a história da cidade, que mais tarde recebe outras denominações
A história da fundação da paróquia de Nossa Senhora da Candelária se mistura à dos primeiros povoados de Indaiatuba. O primeiro pároco foi Pedro Dias Paes Leme, que no dia 7 de setembro de 1832, presidiu a primeira assembleia paroquial, formada para a eleição de dois juízes de paz para a freguesia de Indaiatuba e vereadores para a Câmara de Itu.
Segundo o historiador Nilson Cardoso de Carvalho, na obra A Paróquia de Nossa Senhora da Candelária de Indaiatuba – 1832-2000, publicada pela Fundação Pró-Memória, a atual Matriz foi instalada no bispado de Dom Manoel Joaquim Gonçalves de Andrade, quinto bispo da Diocese de São Paulo. A igreja surgiu por meio do Decreto Imperial de 9 de dezembro de 1830, o qual criou a Freguesia do município.
Sobre a constituição material da primeira instituição religiosa católica da cidade, Carvalho acrescenta: “(…) era de pau-a-pique, já estavam iniciadas as paredes de taipa de pilão de uma nova igreja que viria a substituí-la. Estas paredes, que começaram a ser erguidas em cerca de 1807, só ficaram prontas e levaram cobertura no ano de 1839”. Antes disso, em 1819 a igrejinha recebeu o nome de capela do Sagrado Coração de Maria, e só depois veio a ser elevada à matriz, com o nome de Nossa Senhora da Candelária.
Párocos
No ano de 1840, após nove anos, o padre Paes Leme adoeceu; em 1841 ele foi substituído pelo pároco Antônio Casemiro da Costa Roris. Em 1844, assume o vigário Lourenço Correa Leite de Moraes, de janeiro a maio. Em seguida, ele deu lugar ao padre Bento Dias Pacheco, que permaneceu na Matriz de maio a dezembro de 1844, e mais tarde, substituiu Roris nos anos de 1847 e 1848.
No livro Uma Aventura na Terra dos Indaiás (2003), a historiadora Martha de Andrade Barbosa Marinho cita o padre Bento Pacheco como atuante na vida religiosa do município; “como vigário, presidiu diversas eleições municipais”.
O padre Roris, por sua vez, retornou como pároco em 1848; por meio de concurso, decreto e carta imperial, ele passou a assinar como vigário da paróquia de Indaiatuba. Em outubro de 1884, ele realizou seu último casamento na Matriz; alguns dias mais tarde, o padre veio a falecer. Segundo pesquisas de Carvalho, os paroquianos tinham tanta estima por Roris que decidiram fazer seu sepultamento debaixo do altar-mor da igreja.
Padroeira de Helvetia
A Paróquia Nossa Senhora de Lourdes de Helvetia nasceu em 1914, pelo Monsenhor Joaquim Mamedi da Silva Leite. Na ocasião, houve uma missa celebrada pelo Frei Bernardino de Lavalle e Dom Ildefonso Stehle.
De acordo com o relato do secretário da paróquia, Helio Carlos Amstalden, a igreja foi instalada após uma confusão entre a comunidade e o governo da cidade. “O prefeito era o Major Alfredo de Camargo Fonseca e ele queria tirar o padre da Igreja Nossa Senhora da Candelária, Miguel Guilherme, que não permitiu que ele participasse de uma celebração com sua amante. O bispo não acatou a reclamação e veio para Indaiatuba.”
O prefeito tentou impedir que o bispo fosse recebido no município. Então, o religioso se hospedou na casa paroquial, onde acabou brigando com Fonseca. “Foi pedido a Antônio Ambiel, de Helvetia, ajuda para libertar e buscar o bispo e sua comitiva. Para comemorar, houve um jantar na comunidade e, no dia seguinte, Dom Nery celebrou uma missa na Igreja Nossa Senhora de Lourdes. De volta a Campinas, o bispo decidiu pela criação da paróquia, em gratidão ao ato dos helvetianos”.
Irmandades
O terreno para a construção da Santo Antônio foi comprado pelo padre Vicente Rizzo, em 13 de agosto de 1940. Cinco anos depois, o padre Antônio Janoni tomou posse na paróquia Candelária, e durante sua permanência ali é que foi construída a pequena igreja, localizada na Rua Pedro Gonçalves. A comunidade Santo Antônio surgiu de um grupo de reza em devoção ao sagrado coração de Jesus, na Vila Almeida, nos anos 1970, época do Padre Álvaro Ambiel. Em 1979, a capela também era utilizada como velório, dada a proximidade do cemitério e pela ausência de velório municipal.
A primeira procissão e festa de Santo Antônio se deram em 1982, já como comunidade. Nesta época, precisava-se arrecadar dinheiro para construção de salas de catequese. Padre Piazza determinou que as Comunidades de São Benedito e Santo Antônio ficassem responsáveis por apoiar o início da comunidade de Altos da Bela Vista.
Na irmandade de São Benedito havia basicamente homens e mulheres descendentes de escravos negros. Além de cuidar da capela, hoje Igreja São Benedito, os membros organizavam festividades de louvor, com novenas e procissão, que encerrava os eventos no dia 13 de maio, dia da abolição da escravatura no Brasil.
Evangélicos estão há mais de cem anos na cidade
Para Martha Marinho, Indaiatuba já contava com outras manifestações religiosas, lembrando do exemplo dos escravos africanos que aportaram por aqui, com suas crenças nos orixás. Porém, os templos de outras denominações começaram a surgir a partir da vinda dos europeus.
“Um grupo de presbiterianos já se reunia regularmente desde 1911, por meio de membros da congregação de Monte-Mor, na residência de Pedrina Soares Wolf, no Mato Dentro”, conta em seu livro. “Em 1913, o reverendo James Smith inaugurou o trabalho presbiteriano na casa de Luiz Stahl”, completa. Entre as famílias presbiterianas do município, Martha elenca os Stein, os Almeida, Wolpi, Wolf, Paratello, Candello, Steffen e Stahl, além de várias outras.
Porém, só em 1932 o grupo religioso ergueria o primeiro templo, na Rua Bernardino de Campos, “(…) que era cedido aos luteranos a fim de que eles realizassem ali os seus cultos”, narra. A partir dos anos 1960, outros templos presbiterianos foram construídos, como o da Igreja Presbiteriana Renovada, que chegou a Indaiatuba em 3 de agosto de 1986, fundado pelo pastor Agenor Pereira da Silva. “Neste ano, completamos 30 anos de existência, com um histórico muito lindo na cidade”, declara o pastor atual, Elizeu R. Almeida, do templo na Alameda Dr. José Cardeal, no Jardim Pedroso.
O pastor, que está à frente da igreja há 12 anos, e também é o vice-presidente do Conselho de Pastores de Indaiatuba, esclarece que a primeira igreja presbiteriana a chegar ao país foi a Presbiteriana do Brasil. “Aqui em Indaiatuba, o templo fica na Rua Tuiuti, e tem conceitos fortes no calvinismo; depois, veio a Igreja Presbiteriana Unida; a Independente; e, por fim a Renovada, cuja diferença está na crença nos dons espirituais, o que a torna também carismática”, esclarece.
A Igreja Presbiteriana Renovada está presente também no Jardim Morada do Sol, no Jardim Lauro Bueno e no Oliveira Camargo. O pastor Elizeu fala que a missão dos presbiterianos é a de educaras pessoas, e levar a elas à palavra de Deus.
Batista
A primeira Igreja Batista foi construída no final dos anos 1950, na Rua Padre Bento Pacheco, próximo à rodoviária. O pastor catarinense Vilmar Paulichen, que está à frente do templo há cinco anos, conta um pouco da trajetória dos batistas no município. “A igreja foi fundada em 29 de agosto de 1954, e o primeiro pastor foi Alcides Marzola, onde se formou um concílio para a organização, com 14 pastores locais. As instalações eram bem modestas, e só depois de alguns anos concluiu-se a construção”, narra.
Os batistas defendem cinco princípios básicos, nos quais pautam suas crenças e ações. “Nosso foco principal é ensinar a Bíblia como única fonte de regra e prática. A escola bíblica é muito antiga e forma o alicerce doutrinário”, complementa.
A denominação Batista surgiu da palavra ‘batiza’. “Tradicionalmente, o grupo rompeu com a ideia de batizar apenas crianças. Assim, ‘rebatizavam’ as pessoas. Isso ocorreu em 1612, na Inglaterra”, observa o pastor. “Uma pessoa adulta, quando batizada, tem convicção do que está fazendo.”
Alguns grupos de pessoas saíram da primeira Batista para formar outras. “Há a Nova Aliança, Vida Nova e a Batista do Morada do Sol, todas formadas por antigos membros. Já a Nova Redenção foi fundada por um grupo de Jundiaí”, enumera Paulichen. “Indaiatuba é uma cidade com muitas religiões, e todas convivem harmoniosamente”, salienta o pastor.
Por motivos de saúde, Paulichen teve de se afastar da igreja por algum tempo, e afirma que o apoio dos fiéis indaiatubanos o comoveu. “Nunca me senti tão amado e acolhido como aqui em Indaiatuba. Todo o cuidado e atenção que recebi têm sido fundamentais no tratamento”, destaca.

Pastor Vilmar Paulichen (Crédito: Werner Münchow)

igreja batista (Crédito: Werner Münchow)

presbiteriana (Crédito: Werner Münchow)

xxx (Crédito: Werner Münchow)

Pastor Albrecht Astor (Crédito: Werner Münchow)

luterana (Crédito: Werner Münchow)
Então, a doutrina dos espíritos
O primeiro Centro Espírita de Indaiatuba foi o Apóstolos do Bem, em 1934, em uma modesta casa alugada, na Rua Bernardino de Campos, esquina com a Rua 5 de Julho. O Ceab surgiu da reunião de algumas famílias católicas que, assediadas por entidades espirituais, tiveram suas residências apedrejadas, além da perturbação sofrida por alguns de seus membros.
Depois de recorrerem a padres e frequentarem missas, feito promessas e até procurarem curandeiros, sem sucesso, foram buscar a ajuda de um médium, Francisco Sales, no município de Mombuca. Após serem curados, eles foram orientados a fundarem um centro espírita com base na doutrina de Allan Kardec, o codificador do Espiritismo.
“A primeira diretoria tinha José Rodrigues Melo como presidente, e José Paes Leme, como vice; além de Benedito e Antônio Paes Leme, Francisco Pinto e Inácio Ribeiro, secretários e tesoureiros”, lembra Deoracy de Oliveira, um dos membros da diretoria do Ceab.
“No começo foi bastante difícil, porque as pessoas não conheciam a Doutrina Espírita, e tinham muito medo. Mas, as coisas começaram a mudar quando a filha e a nora do industrial Hércules Mazzoni entraram em um complicado processo obsessivo espiritual. Só depois de muito sofrimento, eles resolveram procurar o Apóstolos, onde se iniciou o processo de cura definitiva”, se recorda.
Deoracy lembra que o fenômeno fez com que a família Mazzoni começasse a frequentar o Ceab. “O Hércules, que era ateu e materialista, se tornou espírita e comprou um terreno na Rua Treze de Maio, onde construiu a sede do centro, que está lá até hoje. O primeiro estatuto foi registrado em 20 de julho de 1937, data em que celebramos a fundação oficial”, relata Deoracy, que chegou a Indaiatuba em 1960.
“Naquele ano, o Apóstolos criou dois departamentos: o dispensário André Luiz, que distribuía remédios homeopáticos, cestas básicas e roupas, duas vezes ao mês, além de oferecer palestras sobre religiosidade e puericultura; e o Lar de Velhos e Cegos Emmanuel, que foi construído em esquema de mutirão de 1964 até 1966, em um terreno doado pela Prefeitura. Todos se engajaram e arregaçaram as mangas, e iam todo sábado colaborar na construção – o chefe da obra nem era espírita. A equipe era composta por médicos, dentistas etc. Eu mesmo fui servente de pedreiro e assentei tijolo”, revela.
“Por volta de 1974, começaram a chegar as famílias espíritas de São Paulo e outras cidades”, pondera. Entre os que deixaram seus nomes impressos na história da primeira casa espírita da cidade estão os Góis; Paes Leme; Ribeiro; Cardoso; Santos; Sales; Melo; Bimont; Távora; Cosmo; Hudson; Vieira; Stein; Artoni; Packer; Fosco; Dias; Scalfi; Gibim; Oliveira e outros.
Padre Zabeu
Atualmente há muitas casas espíritas em Indaiatuba. A segunda mais antiga é o Centro Espírita Padre Zabeu Kauffman, que já existia no início dos anos 1960. “Nas últimas décadas, com o crescimento do movimento na cidade, o Zabeu começou o Recreio da Sopa, de assistência aos moradores de rua, e às mulheres carentes – que existe até hoje, com a Casa Anália Franco. Paralelo a isso, o centro vem realizando atividades doutrinárias, como acontece em todos os outros”, explica Luís Lemuchi, orientador de cursos no Zabeu.
Segundo Lemuchi, o que mais chama a atenção no trabalho das casas espíritas é a assistência social. “O atendimento é para todos, porém, a espiritualidade recebe os benefícios de forma automática – é uma via de mão dupla, onde a melhora do lado material auxilia o espiritual”, arremata.

xxx (Crédito: Acervo CEAB)

xxx (Crédito: Acervo CEAB)

x (Crédito: Arquivo Ceab)
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