Publicado em: 30/11/2016 18h30 – Atualizado em 08/12/2016 09h48
Nas vitrines das esquinas, muita história
Armazéns, mercearias e um bar em meio a um jardim compunham a cena do comércio local
Fundação Pró-Memória
Farmácia Candelária, na rua com mesmo nome, com a Siqueira Campos, na década de 1940
Farmácia Candelária, na rua com mesmo nome, com a Siqueira Campos, na década de 1940
Nos tempos em que o município era um bairro de Itu, e ainda chamado de Indayatiba, por volta de 1793, os poucos habitantes das proximidades do Ribeirão Votura eram agricultores, e faziam trabalhos de fiar e de louças. Porém, já começavam a chegar os primeiros artesãos – carpinteiros, ferreiros e sapateiros.
Em 9 de dezembro de 1830, foi criada a freguesia de Indaiatuba, no território ituano, que ganhava ainda áreas desmembradas de Campinas e Jundiaí. O povoado já iniciava seu desenvolvimento, com a construção de estalagens, casas de comércio e pouso. “Era um comércio simples para atender à pequena clientela que passava por ali, em direção às vilas de Itu e São Carlos”, informa a historiadora Martha de Andrade Barbosa Marinho.
Naquela época, não havia variedade de itens, e os comerciantes vendiam apenas o necessário aos habitantes e forasteiros. Os itens mais comuns eram carne salgada, aguardente, toucinho. A historiadora destaca que os donos desses estabelecimentos tinham de pesar os gêneros comercializados e tirar licenças da Câmara anualmente, para exercer as atividades, além de pagar os impostos todo início de ano.
“Segundo os lançamentos, em 1872 existiam em Indaiatuba oito lojas de fazendas e armarinhos, 29 armazéns de secos e molhados (inclusive os localizados nos sítios e fazendas), duas farmácias, cinco hotéis, 17 fabricantes de pinga etc.”, revela Martha.
Alguns anos mais tarde, nas duas primeiras décadas do século 20, a Praça Prudente de Moraes se transformaria no centro comercial de Indaiatuba. A cidade ainda era pequena, possuindo poucas ruas, sendo que o centro do comércio se concentrava na esquina da Rua XV de Novembro com a Rua do Comércio (atual Siqueira Campos).
Em sua obra, Martha Marinho descreve o cotidiano das pessoas à época: “Existiam alguns armazéns de secos e molhados, algumas lojas de armarinhos, botequins e boticas. O comércio não tinha horário para abrir (…) mas tinham que obrigatoriamente fechar às 21h, quando o sino da Cadeia batia o sinal de silêncio. Com o aumento da cidade, começaram a funcionar o cinema e o futebol. Então, a Câmara criou uma lei para que o comércio fechasse aos domingos às 16h”.
Espaço para animais
Durante muitos anos, os armazéns do município serviam às famílias com a tradicional caderneta. As pessoas compravam o que necessitavam e o dono do estabelecimento anotava ali os valores, que eram pagos no final de cada mês.
“Era assim nos armazéns do sr. Ambrósio Lisoni, no de Jorge Nicolau, Francisco Bozelli, Arthur Tomasi, Francisco Tancler, irmãos Zerbini e outros”, cita Martha Marinho, lembrando ainda que todo estabelecimento que se prezasse deveria possuir um terreno para abrigar os animais dos fregueses, já que o transporte da época eram as charretes puxadas por cavalos. “Os animais eram tratados, recebiam água e feno, enquanto seus proprietários faziam compras”, acrescenta Martha.
A autora menciona outros comerciantes populares daquele período, entre os quais estavam: Sílvio Fracarolli, João Martini, Ido Martini, Jacob Lyra e Francisco Capovilla.
À moda das senhoras
Situada entre as ruas XV de Novembro e Bernardino de Campos, a Casa Nicolau foi inaugurada no final do século 19, por Miguel Nicolau. A loja comercializava artigos variados e ditava a moda para as mulheres.
Entre os anos 1935 e 1975, o comércio esteve sob a direção de Júlio Nicolau; em seguida o comércio foi modernizado e permaneceu por muitos anos com Catarina e Sarah Nicolau, tias de Miguel. Por fim, após um século de existência, a Casa Nicolau fechou suas portas.
Venda de carros: pioneirismo contemporâneo
Em junho de 2001, um grupo de empreendedores do ramo de revenda de automóveis concretizava a compra da concessionária Fiat. Nascia o Grupo Balilla, formado pelos sócios Antônio Geraldo Lorenzetti, José Leandro Lorenzetti; João Waine Fernandes e Luís Carlos Queiroz, todos comerciantes experientes no município.
“Nós tínhamos lojas de seminovos em Indaiatuba, e em outubro de 1986, montamos a primeira loja, na esquina das ruas Bernardino de Campos com a Nove de Julho”, comenta Luís Carlos, atual diretor administrativo da Balilla. “Ao todo, tivemos quatro lojas, inclusive, um comércio em São Paulo”, completa.
Contudo, nos anos 1990, cansados das constantes viagens à Capital, os quatro sócios resolveram comprar um imóvel aqui na cidade. “Começamos a procurar e não acreditávamos que iríamos conseguir um espaço, quando surgiu o prédio da Avenida Presidente Vargas e fechamos negócio”, rememora.
“Tivemos uma felicidade muito grande na aquisição da Fiat, já que éramos um grupo do município que estava comprando uma marca em ascensão. Aquele também foi o primeiro ano de liderança da montadora no Brasil. Além disso, Indaiatuba não tinha tradição em feirões de automóveis, e já no primeiro mês instalados aqui, realizamos o primeiro feirão, e foi um sucesso”, destaca Luís.
Ele revela que a equipe trouxe o modelo de feiras de carros de São Paulo, e foi pioneira, inclusive, na região. “Servimos de espelho para pessoas de outras cidades, que vinham aqui para ver como funcionava nosso modelo. Em um final de semana, nós vendemos 70 veículos, sendo 30 seminovos e os outros zero quilômetro – um recorde”, avalia. “Tem outra coisa: a Fiat não trabalhava com seminovos e nós trouxemos esta força, o que alavancou ainda mais as vendas.”
O empresário diz também que Indaiatuba é referência em revenda de automóveis. “Acredito que seja por causa da renda per capita, que favorece a aprovação de fichas; o índice de desemprego aqui foi menor, e a ausência de fichas fraudulentas – isso tudo faz a diferença. Embora o setor automobilístico tenha sido bastante atingido pela crise, aqui o impacto foi menor, graças à administração da cidade, que contribuiu fortalecendo os empresários. É uma sequência de trabalho: uma boa estrutura atrai empresas e pessoas, e isso Indaiatuba oferece”, conclui.
Associação
Em abril de 1970, os comerciantes ganharam uma agremiação. A Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Indaiatuba (Aciai) surgiu com o objetivo de atender tanto aos empresários do varejo quanto aos consumidores.
Sob a atual gestão do economista Jair Sigrist, a Aciai oferece alguns serviços, como consultas ao SPC/Serasa para Pessoa Física; relatório Certocred, que possibilita aos lojistas consultarem o histórico de inadimplência de consumidores; e o Serviço de Recuperação de Crédito (SRC), mediando acordos entre devedores e credores.
Fontes de pesquisa:
– Uma Aventura na Terra dos Indaiás (Marinho, Martha A. B.), 1ª ed., 2003 (cedido pela Fundação Pró-Memória);
– Programa de História Oral – Transcrição de Depoimentos. Entrevistadores: Antônio Reginaldo Geiss, Janice Gonçalves e Marlene Aguilera de Oliveira. Transcrições de Luís Fernando Baia Antonietto, Silvane Rodrigues Leite Alves e Sheila Souza. Depoentes: Dolácio Pimentel, Lauro Magnusson e Sylvia Teixeira de Camargo Sannazzaro. Fundação Pró-Memória, Arquivo Público Municipal 1994 e 1996.

Venda de veículos multimarcas foi outra iniciativa grupo (Crédito: Divulgação)

A concessionária Balilla foi pioneira na implantação do feirão de automóveis na cidade, logo no início dos anos 2000 (Crédito: Fotos: Divulgação)
Movimento de imigração colaborou com o comércio local
Não chegaram aqui em grupos de imigrantes, conforme aponta Martha Marinho. Segundo ela, foram poucas as famílias de maior importância no comércio local. “(…) Aiub Haddad, nome árabe de Eduardo Miguel Ferreira, conhecido também como Eduardo Turco. Nascido no Líbano, veio para o Brasil em 1903. (…) Era também mascate e quando veio para Indaiatuba, passou a visitar fazendas e bairros distantes, como Helvetia e Itaici, para vender suas mercadorias”, narra ela.
Feres Pedro Aun aportou no País por volta de 1909, então com 18 anos. Ele deixou a família no vilarejo de Zaitre, próximo a Beirute, capital do Líbano, e veio tentar a vida junto a outros parentes que o precederam.”Ele tinha um tio, Miled, da mesma idade, que morava em Vinhedo, e juntos montaram uma loja na esquina das ruas Bernardino de Campos e Pedro de Toledo”, lembra José Celeste Aun, neto de Feres e atual proprietário da Casa Feres. “Devido a uma fatalidade na família, Miled retornou a Vinhedo e meu avô passou a tocar a loja sozinho, mudando-se para a Rua XV de Novembro, na esquina com a Bernardino de Campos”, completa.
Mais tarde, Feres se casou com Wadiah Cury, que residia em Campinas, mas também era libanesa. Da união nasceram Nagibe e Salim Feres Aun, pai de José Celeste. “Eles tiveram um namoro de apenas dois meses, casaram. Em 1911, meu pai criou a Casa Feres”, conta.
Na década de 1920, Elias Aun, primo de Feres, também veio para o Brasil, onde teve um bar e depois um restaurante. No mesmo vapor de Elias, estava Nagib Simão, da família Sfeir. Ele foi trazido pelo pai, Pedro Simão Sfeir, que já vivia aqui, próximo a Helvetia.
Laços de família
Em 1924, a Casa Feres foi transferida para o local onde está até hoje, na esquina das ruas Siqueira Campos e XV de Novembro. “Meu avô faleceu em 1968, quando eu tinha oito anos; então, vovó e papai ficaram tomando conta da loja. Mas, no início dos anos 1980, ela teve um acidente e fraturou a perna, e papai me chamou para ajudar nos negócios. Naquela época eu estava morando e trabalhando em São Paulo – assim mesmo, deixei tudo para assumir a loja”.
Mais tarde, em 1993, ocorre o falecimento de Salim Feres e, um ano depois, o de Wadiah. “Na partilha, eu herdei o prédio e decidi derrubar tudo para construir outro mais adequado. Depois, Luís Soriano, que era proprietário no terreno ao lado (na Siqueira Campos), me ofereceu o espaço e acabei comprando, o que possibilitou a ampliação da loja, que completou 105 anos em setembro deste ano. E eu estou aqui há 36 anos”, salienta o comerciante.
José Celeste se casou com Josiane Polezel em 1988. Ela e a mãe do empresário,Iracema Joaninha Cainelli Aun, trabalham na loja até hoje. “Juntando com o tempo de namoro, já são 38 anos”, revela Josiane. “A Josiane é uma consumidora de tecidos em potencial”, emenda o marido. “Ela manda fazer as próprias roupas e vem trabalhar vestida com elas, e acaba ajudando nos negócios, pois as peças chamam a atenção das clientes”, diz ele. “Aqui se chama Casa Feres porque não é uma loja, e sim, um lar”, garante Josiane. “Quando assumi, havia pessoas que eram clientes do meu avô; elas se casaram e se vestiram de noiva com nossos tecidos. Hoje, as netas e bisnetas continuam comprando com a gente, porque gostam de manter este vínculo”, complementa José. Atualmente, a Casa Feres possui 14 funcionários, e a mais antiga já tem 20 anos de loja. “O segredo do sucesso é encostar a barriga no balcão e ficar atento a tudo o que acontece. Se você ficar no escritório, atrás de uma mesa, irá apenas ‘supor’, mas nunca conhecer de fato a realidade. O balcão é o instrutor do negócio – todas as decisões da loja são tomadas com base no comportamento e opinião dos clientes”, ensina o comerciante.

Wadiah Cury Aun administrou a loja ao lado do filho Salim (Crédito: Fundação Pró-Memória)

Na década de 1930, Pedro Feres Aun comandava a loja (Crédito: Fundação Pró-Memória)
Sempre Avante Savóia
O estabelecimento de José Tancler, na esquina da Rua Sete de Setembro com a XV de Novembro, operou até 1940. Com a legenda Sempre Avante Savóia, Tancler era um “comerciante e cidadão atuante”, tendo participado de todos os movimentos da cidade.
Martha Marinho atesta que, nos anos 1950, o município já contava com 67 estabelecimentos comerciais que envolviam 176 pessoas. “Em 1960 já passaram a existir 340 estabelecimentos comerciais com 255 envolvidos. Em 1970, eram 340 comércios e 600 pessoas trabalhando.”
Em entrevista concedida a Antônio Reginaldo Geiss, Dolácio Pimentel, contou que a família tinha um açougue em Monte Mor. Ele era filho de Porfírio Pimentel, que decidiu se estabelecer com o comércio de carnes em Indaiatuba, que funcionou por 37 anos. “O dono da farmácia, Antônio Cordeiro, era meu tio e padrinho (…)”, relatou Dolácio.
Ele lembrou ainda: “Trabalhei com meu pai no açougue. Meu pai, quando eu era garoto, ia picar carne, levantava duas ‘hora’, três ‘hora’, uma hora da madrugada, conforme o tamanho do boi. Eu era garotinho, então ele levava o ponche e estendia embaixo de uma mesinha que ele colocava os pesos de carne. Eu deitava e dormia um pouquinho ali, e depois ia entregar carne. De manhã ia entregar carne no hospital. (…) tinha sete ‘ano’, oito ‘ano’. Eu tinha um medo de descer aquela rua do hospital ali rapaz! Descia… pai nosso e ave maria até lá rezando, a pé, cesta na costa (…) Então eu dava a volta lá por detrás do hospital… não passava em frente o necrotério de jeito nenhum!”
O Redondo
Geiss também entrevistou Lauro Magnusson, indaiatubano filho de Frederico e Ema Gazzi Magnusson. Uma de suas lembranças se referiu ao Bar do Redondo, que ficava na Rua Cerqueira César (onde também foi sede da Prefeitura de Indaiatuba). “Ah, o Redondo era o ponto da turma dos que gostavam de tomar cerveja, tinha um barzinho dentro do Pínfari… Então, o Redondo era bonito e ficava iluminado à noite, tudo fechado aquilo era bem arrumadinho mesmo. Só tinha uma entrada, e a turma sentava, tomava uma cerveja (…)”, detalhou.
Sylvia Teixeira de Camargo Sannazzaro, também entrevistada por Geiss, se lembra com detalhes do espaço: “(…) havia ali meia quadra de jardim (…) então o prefeito Alfredo Fonseca fez um jardim bonito, muito bonito, com roseiras, era uma beleza (…) e na ponta de cá, dando para a Rua XV de Novembro, fizeram um redondo bem grande, e puseram bancos e mesinhas, né”. “Do bar, era o Hildebrando que cuidava”, continuou Sylvia. “(…) nesse jardim a mocidade passeava, dava volta, e quem gostava de tomar uma bebida entrava no Redondo, no jardim (…) era um bar familiar e bem rústico também, porque era chão de terra e tinha as mesinhas (…) não tinha cobertura, era ao relento”.
Na entrevista a Geiss, Lauro Magnusson acrescentou outras lembranças do comércio de décadas passadas: “(…) tinha o armazém do Lisoni, onde hoje é o Banco do Brasil; depois passou para o Jacob Lyra, com armazém também. (…) A loja do Nicolau ficava em frente ao Artur Tomazzi. Depois vinha o Feres, e em frente ao Feres tinha a padaria do Gentil Lopes. Era um ponto de concentração da turma que vinha do sítio, principalmente da Cruz Alta (…). Tinha outra padaria, a Universal, do Donalísio (…)”. Lauro também mencionou a farmácia Candelária: “(…) do Odilon Cordeiro e do Zephiro”.
Nos anos 1930, o Redondo era o ponto de encontro da cidade nas tardes de domingo (Crédito: Fundação Pró-Memória)

Ângelo Bruni e Ítalo Pínfari (chapéu), no Redondo, em 1926 (Crédito: Fundação Pró-Memória)
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